19 de janeiro de 2020

CÂMARA MUNICIPAL DE SALINAS FAZ 137 ANOS

Atual sede da Câmara Municipal de Salinas.

Por Roberto Carlos Morais Santiago



Data importante na história de Salinas digna de registro e comemoração. É que a Câmara Municipal de Salinas fez 137 anos no dia 19 de janeiro de 2020 tendo em vista a instalação da sua 1ª Câmara Municipal ocorrida no dia 19 de janeiro de 1883, final do século XIX, ainda no II Império de D. Pedro II. 

Assim, efetivou-se de fato e direito a emancipação política e administrativa do município de Santo Antônio de Salinas, criado pela pela Lei Provincial nº. 2.275, de 18 de dezembro de 1880. Os primeiros vereadores eleitos de Santo Antônio de Salinas tomaram posse na Câmara Municipal de Rio Pardo, onde foi instalada. 


Na posse, o vereador Antônio dos Anjos Silva Sobrinho foi eleito presidente da 1ª Câmara de Salinas e Agente Executivo (cargo equivalente a prefeito atualmente) tornando-se no primeiro mandatário político do novo município.
 
Eis o teor da ata de instalação da 1ª. Câmara Municipal do Município de Santo Antônio de Salinas, para o quadriênio 1883-1886:



ATA DE INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE
SANTO ANTÔNIO DE SALINAS


“Termo de juramento e posse aos sete vereadores da Câmara Municipal da
Vila de Santo Antônio de Salinas

Aos dezenove dias do mês de janeiro de 1883, às quatro horas da tarde, sob a presidência do Vereador da Câmara de Rio Pardo de Minas, Conrado Gomes Caldeira, compareceram os senhores Cap. Carlos Dias Torres, Tte. Donério Ferreira de Araújo, Luiz Ferreira Monteiro, Antônio dos Anjos Silva Sobrinho, Avelino Ferreira de Almeida, Honofre Valente Franco e Mudesto José da Silva, vereadores eleitos para o futuro quadriênio de 1883 a 1886, como fez certo pelo seus respectivos diplomas, e prestarão sobre o Livro dos Santos Evangelhos, o juramento com as formalidades legais, prometendo cumprir com bôa e sã consciência os deveres do cargo de vereadores, do qual tomarão posse. E de como assim dicerão, para constar lavrei este ermo. Eu, José Cândido Moreira e Souza, secretário interino desta Câmara que este fiz e subscrevi.”

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Referência bibliográfica:

ÂNGELIS, Newton. Efemérides Riopardenses. Salinas: 1998, pág. 49.

18 de dezembro de 2019

MUNICÍPIO DE SALINAS FAZ 138 ANOS


Por Roberto Carlos Morais Santiago

A data mais importante da história de Salinas figura em seu brasão.
Hoje, dia 18 de dezembro de 2019, Salinas faz 139 anos de existência como município. A data é histórica e digna de registro. 

O município foi criado pela Lei Provincial nº 2.725, de 18 de dezembro de 1880, assinada pelo vice-presidente da província de Minas Gerais, Cônego Joaquim José de Sant'Anna, na então capital Ouro Preto, cujo imenso território foi desmembrado da Vila de Rio Pardo. Nesta data vivia-se o Brasil imperial de D. Pedro II. 

Trata-se da mais importante data da história de Salinas que vem desde 1790, no final do século XVIII, quando chegaram os pioneiros e iniciaram o primeiro núcleo urbano  para exploração de sal gema, produto muito precioso na época.

Infelizmente, data tão importante vem sendo ignorada pelas autoridades e pelo povo salinense. Equivocadamente o município comemora como sendo sua data oficial o dia 4 de outubro de 1887 (feriado municipal) em razão da Lei Provincial nº. 3.485. Não se questiona a importância desta data, pois esta foi somente o reconhecimento da vila de Santo Antônio de  Salinas como cidade. Nesta data, o município já existia, inclusive com instalação de sua 1ª. Câmara Municipal  no dia 18 de janeiro de 1883.

Como povoado, Salinas surgiu por volta de 1790, no final do século XVIII, ainda no período colonial lusitano. Considerando-se o período de surgimento do povoado, Salinas tem hoje 226 anos de história e, inacreditável, quase ninguém se dá conta disso, principalmente as autoridades constituídas. De 1790 a 1833 foi povoado e integrava o Termo de Minas Novas do Fanado (atual município de Minas Novas). De 1833 a 1880, foi distrito de Rio Pardo de Minas. De 1880 até os dias atuais como município.

Salinas, década de 1930.
Salinas possui quatro datas importantes na sua história dignas de registro: 1790 (surgimento do povoado),  1880 (criação do município), 1883 (instalação da 1ª. Câmara Municipal) e 1887 (vila elevada a cidade). Somente a última é comemorada oficialmente. 

Assim, a data oficial do município de Salinas deveria ser 18 de dezembro de 1880, ou, na pior hipótese, 18 de janeiro de 1883, data de instalação da 1ª Câmara Municipal. 

Algum vereador de Salinas com lucidez histórica deveria propor projeto de lei alterando a data oficial do município. É o mínimo que se faria aos antepassados salinenses que lutaram pela emancipação da Vila de Rio Pardo.

Do seio de Salinas foram criados vários municípios ao longo de sua história: Pedra Azul (1911), Taiobeiras (1953), Águas Vermelhas (1962), Rubelita (1962), Fruta de Leite (1995), Novorizonte (1995) e Santa Cruz de Salinas (1995).


Figura como principal economia da microrregião de Salinas composta por dezessete municípios. A epopeia do povo salinense é digna de registro. Lembrar o passado salinense é dar o devido valor aos seus antepassados que tanto contribuíram para a Salinas de hoje ser o que é no cenário nacional, inclusive com o título invejável de Capital Mundial da Cachaça de Alambique.

Abaixo texto original da Lei nº. 2.725, de 18 de dezembro de 1880, que criou o município de Santo Antônio de Salinas (em 1923 o município passou a se chamar somente Salinas - Lei Estadual nº. 843, de 7 de setembro de 1923 - tal como é até hoje):

................


LEI Nº. 2725, de 18/12/1880
(texto original)

Cria o Município de Santo Antônio de Salinas

O Cônego Joaquim José de Sant’Anna, Comendador da Ordem de Cristo e Vice-Presidente da Província de Minas Gerais: Faço saber a todos os seus habitantes, que a Assembléia Legislativa Provincial decretou, e eu, sancionei a Lei seguinte:

Art. 1º - Fica elevado à categoria de vila o arraial de Santo Antônio de Salinas, devendo ser a mesma instalada, depois que seus habitantes houverem oferecido à província os edifícios com as acomodações necessárias para câmara, cadeia e escolas de instrução primária. 


§ 1º - O município desta vila se comporá das freguesias de Santo Antônio de Salinas, sua sede, e de Água Vermelha, ambas desmembradas do termo do Rio Pardo; ficará pertencendo à comarcado Grão Mogol, e terá todos os ofícios de justiça criados por lei geral. 


§ 2º - As divisas da freguesia de Água Vermelha serão asmesmas do antigo distrito deste nome, compreendendo os lugares denominados Catinga e Pajão.

Art. 2º - Ficam revogadas as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimentoe execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais, aos 18 de dezembro de 1880.

Joaquim José de Sant’Anna
Presidente da Província.

4 de outubro de 2019

O FERIADO DE SALINAS É UM EQUÍVOCO HISTÓRICO

Por Roberto Carlos Morais Santiago
Brasão de Salinas.

O dia 4 de outubro é feriado municipal em Salinas. A data é comemorada todos os anos como se fosse a data de emancipação política do município. 

Tudo por causa da Lei Municipal nº 1.126, de 2 de agosto de 1985, assinada pelo então prefeito Antônio Carvalho da Silva que sancionou a lei reconhecendo esta data como oficial, ainda em vigor.

O blog História de Salinas já abordou esse assunto. Trata-se do maior equívoco histórico de Salinas que já perdura 34 anos desde que foi sancionada. A referida lei diz:


Art. 1º - Fica instituído feriado municipal o dia 4 de outubro de cada ano, data de emancipação política da cidade.




Na verdade, a emancipação política de Salinas não aconteceu no dia 4 de outubro de 1887.  Deu-se de fato no dia 19 de janeiro de 1883 quando da instalação da 1ª Câmara Municipal de Salinas (quadriênio 1883-1886) que ocorreu na Câmara Municipal da Vila do Rio Pardo sob a presidência do vereador Conrado Gomes Caldeira. 

Neste dia tomaram posse os primeiros vereadores eleitos em face da criação do município de Salinas pela Lei Provincial nº 2.275, de 18 de dezembro de 1880. 

Na posse, os vereadores de Salinas elegeram Antônio dos Anjos da Silva Sobrinho o primeiro presidente da Câmara e, consequentemente, tornou-se no agente-executivo (prefeito) e mandatário político do município. Naquela época o presidente da câmara acumulava o cargo de agente-executivo (prefeito) que governava com o apoio de uma junta de conselheiros.


Assim, de fato e direito, a emancipação política e administrativa de Salinas ocorreu no dia 19 de janeiro de 1883.


Entretanto, o município foi criado no dia 18 de dezembro de 1880 pela Lei Provincial nº 2.275, data mais importante da história de Salina (esta data consta no brasão do município, como pode-se ver acima) e que deveria ser a sua data oficial.

Sugere-se que algum vereador de Salinas com alguma lucidez histórica apresente projeto de lei propondo alteração da data oficial do município para 18 DE DEZEMBRO em respeito ao povo de Salinas que lutou pela criação do município com todas as dificuldades no final do século XIX.


Em rol de 89 municípios que integram a mesorregião Norte de Minas, apenas dez foram criados na época do Império (1822-1889). Salinas é um deles. O município possui história épica digna de registro. Corrigir a sua data oficial e histórica é o primeiro caminho. O povo de Salinas merece mais respeito pela sua história de luta e pioneirismo.

5 de junho de 2019

CACHAÇA HAVANA, 76 ANOS DE HISTÓRIA

[1943-2019]
76 anos de história da principal
marca de cachaça artesanal do Brasil.
Por Roberto Carlos Morais Santiago


Tradicionalmente a produção de cachaça na região de Salinas se inicia no mês de junho e se estende até dezembro. O solo e clima da região propicia a produção de cachaça em fazendas escondidas em colinas e serras da região. Nas últimas décadas a cachaça de Salinas alcançou tamanha projeção que é reconhecida como a "Capital Mundial da Cachaça de Alambique". Salinas virou sinônimo de cachaça e faz parte da história da cachaça brasileira. Recentemente ganhou um museu da cachaça construído pelo governo de Minas Gerais. Tem, ainda, um festival anual de cachaça que atrai grande número de turistas ávidos por degustar as mais de sessenta marcas ali produzidas. Atualmente, o agronegócio da cachaça em Salinas já representa cerca de um terço da economia do município.

Ao dar início da produção de cachaça nas fazendas da região, uma terá motivo especial para comemorar: a fazenda Havana, que fica no sopé da Serra dos Bois, entre os municípios de Salinas e Novorizonte. A produção de cachaça teve início em 1943 e, desde então, se transformou numa espécie de reduto sagrado da cachaça brasileira. Da fazenda Havana sai a cachaça mais antiga de Salinas e região: a Havana. A projeção nacional e internacional da cachaça de Salinas teve início nesta fazenda de propriedade do produtor Anísio Santiago (1912-2012). A cachaça de Anísio Santiago fez tanto sucesso que estimulou outros fazendeiros seguirem o mesmo caminho. 

Nestes setenta e cinco anos de produção de cachaça, Anísio Santiago e filhos criaram método de alambicagem e envelhecimento da cachaça Havana - agora também com a marca Anísio Santiago - até hoje não decifrado pelos concorrentes. E, mais, se tornou numa das marcas de cachaça mais caras do país. Ainda assim, a produção continua restrita. A família de Anísio Santiago vem mantendo o mesmo método de fabricação forjado pelo patriarca. As marcas de cachaça Havana e Anísio Santiago é exemplo de sucesso. A longevidade da produção é prova inconteste disso. Bom para Salinas e para a cachaça brasileira. Marcas históricas como a Havana são importantes para o agronegócio da cachaça no Brasil. Serve de referência para outros produtores. Ao longo de sete décadas de produção a cachaça Havana vem demonstrando que é possível fazer sucesso, ainda que a estrutura de produção seja pequena e que o alambique esteja instalado longe dos lugares de consumo.



A cachaça Havana é reconhecida no país e no exterior como um das mais tradicionais marcas de cachaça do Brasil. É apreciada por degustadores, especialistas e personalidades somente em determinadas ocasiões. É guardada como se fosse um tesouro dada a sua preciosidade. Centenas de reportagens em livros e revistas em diversas épocas registraram o feito histórico da cachaça produzida por Anísio Santiago. 

Osvaldo Santiago, filho e sucessor de Anísio Santiago diz que a "tradição e qualidade da cachaça Havana-Anísio Santiago permanecem. Sabemos da importância histórica da cachaça produzida em nossa fazenda. Não abrimos mão do legado deixado pelo nosso pai. Buscamos o centenário da nossa cachaça com esmero e capricho. Muita gente não entende, mas não buscamos riqueza. A fazenda Havana continua do mesmo jeito que ele deixou"

O jornalista Sidnei Mashio recentemente fez belo artigo sobre a fazenda Havana para o site Cachaças.com onde diz que o universo da cachaça tem duas histórias distintas: uma antes e outra depois da fazenda Havana. Preservar a fazenda é manter intacta parte da história da cachaça brasileira.

É com esse espírito de preservação histórica que a cachaça Havana vem se mantendo no tempo e no espaço em busca do seu centenário. O tempo virou companheiro inseparável dessa magnífica marca de cachaça produzida com esmero e capricho na fazenda Havana. Anísio Santiago faleceu em 2002 aos noventa e um anos, mas o seu feito continua sendo perpetuado pelos  filhos. Um exemplo de empreendimento familiar que se perpetua ao longo do tempo num país em que a maioria das empresas fecham no primeiro ano de funcionamento.

O blog História de Salinas parabeniza a família de Anísio Santiago. Afinal, setenta e três anos de produção é um feito espetacular que merece registro e comemoração. Deus protege quem trabalha e produz com honestidade.

Depoimentos

"Historicamente, Anísio Santiago trouxe fama e prestígio para a cachaça de Salinas através da Havana. É um dos maiores patrimônios culturais da nossa terra." (JOSÉ ANTÔNIO PRATES, ex-prefeito de Salinas).

"A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor." (ISRAEL PINHEIRO FILHO, engenheiro, político e filho de Israel Pinheiro, ex-governador de Minas Gerais).

"São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e qualidade. Anísio Santiago soube produzir sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção." (MAURÍCIO MAIA, cachacier).

"Anísio Santiago é referência aos produtores de Salinas, pois viam nele um expoente no processo de produção de cachaça artesanal de qualidade." (ANTÔNIO EUSTÁQUIO RODRIGUES, produtor de cachaça em Salinas sob as marcas Boazinha, Saliboa e Seleta).


"A cachaça Havana é a Ferrari das caninhas." (MILTON LIMA, cachacier e estudioso da cachaça).

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Referência bibliográfica:

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006.





12 de fevereiro de 2018

O LENDÁRIO ANÍSIO SANTIAGO

Anísio Santiago (1912-2002).

O blog História de Salinas não poderia deixar passar em branco a data de nascimento de Anísio Santiago que se comemora no dia 12 de fevereiro, tido como o mais emblemático produtor da história da cachaça brasileira. A história de vida do lendário produtor da cachaça Havana & Anísio Santiago - reconhecida ícone da mais legítima bebida brasileira: a cachaça - é interessante sob todos os aspectos. Em vida foi uma lenda tal o respeito e admiração pela cachaça que produzia. Mesmo após sua morte em 2002, o seu legado continua. Pode-se afirmar que a história da cachaça brasileira se refere a antes e depois de Anísio Santiago.



Por Roberto Carlos Morais Santiago


Se estivesse vivo Anísio Santiago faria 106 anos de vida no dia 12 de fevereiro de 2018. A data é digna de registro e comemoração, pois se trata de um dos personagens mais importantes da história de Salinas e do universo da cachaça no Brasil.

A trajetória de vida de Anísio Santiago transcendeu os limites de sua amada terra. Com seu jeito peculiar de simplicidade soube forjar marca de cachaça: a Havana & Anísio Santiago, cujo método de produção e envelhecimento, ainda mantido pelos seus sucessores, é referência em todo o país. Pode-se afirmar, sem margem de dúvida, que Anísio Santiago é o maior personagem da história da cachaça brasileira. É praticamente impossível discutir o assunto cachaça sem tecer o seu nome e o seu legado.

A família Santiago surgiu no município norte-mineiro de Salinas no ano de 1898, final do século XIX, através do pioneiro José Santiago (1873-1944). Filho de Justino Santiago e Anna Maria de Jesus, nasceu na cidade mineira de Diamantina, localizada no Alto Jequitinhonha.

Ainda jovem, em 1894, José Santiago foi estudar medicina em Salvador. Por razões desconhecidas desistiu do curso no segundo ano. Segundo Arlindo Santiago (1909-2011), filho de José Santiago, o motivo da desistência foi a Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior da Bahia, que mobilizou milhares de soldados do governo federal para combater o temido Antônio Conselheiro. Em dois anos de conflito milhares de pessoas morreram.

Anísio Santiago.
Retornando para Minas Gerais, José Santiago foi morar e trabalhar como professor na cidade de Medina, no Vale do Jequitinhonha. Ali conheceu a baiana Virginia Celestina (1882-1965), natural de Urandi, com quem se casou em 1896.

Em 1898, mudou-se com a esposa para Salinas, também para trabalhar como professor, embora não se tenha registro em qual escolar. A convite de um amigo foi lecionar no povoado de Lagoinha, zona rural do município, isso no ano de 1900.

O povoado de Lagoinha, naquela época, tinha importância estratégica tendo em vista que era parada obrigatória de pessoas e transportadores de mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros.

Em 1903 adquiriu a fazenda Bonfim, próxima ao povoado, onde fixou moradia, tornando-se produtor rural, além de professor. José Santiago tornou-se pessoa muito assediada na região pelo fato de ter conhecimento de medicina, além de ser professor. Em pouco tempo tornou-se uma espécie de líder do povoado de Lagoinha e região.

Da união de José Santiago e Virginia Celestina surgiu prole numerosa, fato muito comum na estrutura familiar do início do século XX. Foram doze filhos: Antônio Santiago (1897-1950), Maria Santiago (1899-1953), Leôncio Santiago (1901-1945), Silvio Santiago (1912-1986), Santinha Santiago (1908-2001), Arlindo Santiago (1909-2011), Anísio Santiago (1912-2002), José Elzito Santiago (1915-1945), Anita Santiago (1913), Osvaldina Santiago (1917) e Osvaldir Santiago (1919-2007). Dos doze filhos, somente o primogênito Antônio Santiago nasceu em Medina, sendo que os demais em Salinas.

José Santiago veio a falecer em 1944, aos sessenta e sete anos e a sua esposa, Virginia Celestina, em 1965, aos oitenta e três anos. Foram precursores da família Santiago em Salinas, cujo tronco da árvore genealógica tem origem na região de Diamantina.

Da prole numerosa de José Santiago o destino reservou ao sétimo filho, Anísio Santiago, trajetória de vida que o tornaria parte da história de Salinas. Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1912, na fazenda Bonfim, zona rural de Salinas. Ali cresceu e viveu sua infância e adolescência ao lado dos pais e irmãos.

Aos doze anos de idade, escondido do pai, experimentou beber cachaça pela primeira vez. Não gostou. Desde então jamais bebeu cachaça em toda a sua vida. Entretanto, quis o destino que a cachaça tivesse importância fundamental em sua vida.

O jovem Anísio Santiago aprendeu vários ofícios. Foi carpinteiro, tropeiro, comerciante, motorista e fazendeiro. Como tropeiro transportou mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros na década de 1930.

De tropeiro tornou-se motorista de um Ford F-8, que adquiriu no final da década de 1930. Foi um dos primeiros motoristas da região de Salinas e foi testemunha ocular da modernidade que aos poucos chegava através das estradas empoeiradas e esburacadas.

Em 1937, aos 25 anos, se casou com Adélia Mendes (1916-2007), então com 21 anos de idade. Deixou o povoado de Lagoinha e fixou residência na cidade de Salinas, onde continuou a exercer as atividades de comerciante e motorista.

Alguns anos depois, em 1942, comprou a fazenda Havana que pertencia a viúva de João Soares, Maria Virgínia Soares, localizada no sopé da Serra dos Bois, distante cerca de doze quilômetros da sede do município. Para lá mudou com a esposa no ano seguinte. Iniciava-se nova fase na vida do então jovem Anísio Santiago.

Fazenda Havana.
Em 1943, estabelecido definitivamente na fazenda Havana, iniciou produção de cachaça em pequeno pequeno alambique que já existia na fazenda dos antigos proprietários. Em pouco tempo a produção de cachaça se tornou na principal atividade econômica. A produção era vendida a granel. Somente em  1946 constituiu empresa e passa a identificar seu produto através da marca Havana, reconhecida como pioneira na região de Salinas. Até então os produtores do município e região produziam e vendiam cachaça a granel aos comerciantes e tropeiros da região desde o final do século XIX.

Em 1947, em parceria com o irmão Sílvio Santiago e o amigo Aníbal Gonçalves das Neves, comprou caminhão Chevrolet Lordmaster, importado dos Estados Unidos. Ele próprio foi ao Rio de Janeiro buscar o veículo. A viagem durou seis dias. Logo comprou as partes do irmão e do amigo Aníbal. Com o caminhão comercializava sua cachaça em Salinas, região norte-mineira e sul da Bahia. Como produzia cachaça de qualidade logo foi adquirindo fama junto ao consumidor. O fato de ser conhecido por onde passava, uma vez que fora tropeiro e motorista de caminhão a partir da década de 1930, facilitava o comércio de seu produto com a entrega "in loco". Este fato não acontecia com outros produtores de Salinas.

Anísio Santiago teve dois fatores decisivos na divulgação do seu produto: a marca Havana (pioneira na região de Salinas) e o caminhão que transportava a bebida diretamente ao consumidor. Com isso saiu na frente dos produtores que comercializam o seu produto a granel. Na década de 1960, vários produtores de Salinas começaram a identificar o seu produto por meio de marcas, de olho no sucesso da cachaça de Anísio Santiago. Viam nele uma referência no processo de produção de cachaça de qualidade, uma vez que a marca Havana tinha grande aceitação na região e a sua fama estava ultrapassando fronteiras. Em função disso logo surgiram várias marcas como a Piragibana, do produtor Ney Corrêa; a Indaiazinha, do produtor Waldete Romualdo; a Seleta, do produtor Miguelzinho de Almeida; a Teixeirinha, do produtor Felismino Teixeira; a Asa Branca, do produtor Juventino Queiroz; a Sabiá, do produtor Juca Marcolino; a Estrela do Norte, do produtor Purdêncio Francisco dos Santos; e a Pulusinha, do produtor Narciso Dias Corrêia., dentre ouras.

Rótulo antigo da cachaça Havana.
Outro fator determinante que favoreceu o surgimento de novas marcas em Salinas foi a decadência da cadeia produtiva de cachaça na região de Januária na década de 1960, em razão de ação gananciosa dos produtores que não souberam manter a qualidade e tradição da cachaça ali produzida. Até então as marcas de Januária gozavam de alto conceito junto ao consumidor na região norte-mineira e em todo o Brasil.

Com isso, Salinas foi aos poucos preenchendo lacuna no mercado de cachaça deixado pelos produtores de Januária. Na década de 1970, Salinas foi se impondo regionalmente como grande produtora de cachaça. O clima, solo e a variedade de cana Java, que se adaptou muito bem ao clima da região, foram fatores decisivos em todo o processo.

Na década de 1990, a cachaça de Salinas passou por novo e vigoroso processo de expansão da produção, culminando no aumento significativo de marcas em função da implantação do Pró-Cachaça, pelo governo mineiro, em 1992, visando estimular o aprimoramento da cachaça artesanal mineira. E deu certo. O Pró-Cachaça, em pouco tempo, revolucionou toda a estrutura da cadeia produtiva da cachaça artesanal produzida em todo o território mineiro, e em Salinas não foi diferente.

Atualmente existem mais de 50 marcas de cachaça produzidas no município. A produção anual já ultrapassa quatro milhões de litros por safra. Tornou-se na importante região produtora de cachaça artesanal de Minas Gerais e do Brasil. Em 2006, foi responsável por 45,87% de toda a arrecadação de ICMS, imposto de circulação de mercadorias e serviços de competência estadual, em todo o território mineiro. O processo de diversificação da economia brasileira ao longo nas últimas décadas vem forjando e incrementando atividades econômicas de produtos típicos da cultura do Brasil no mercado com forte impacto nas economias locais. Salinas encontrou no agronegócio da cachaça uma atividade econômica que vem mudando o perfil de toda a sua economia, contribuindo para o seu desenvolvimento sócio-econômico.

Reconhecendo a cachaça como importante atividade econômica e cultural do município, o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, assinou Decreto Municipal nº. 3.728/2006, reconhecendo a marca Havana como ícone da cachaça salinense com o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas em face de sua reconhecida história, qualidade e notoriedade no mercado brasileiro e no exterior. Por meio do decreto, fato inédito no Brasil, o poder executivo municipal reconheceu o feito espetacular do produtor Anísio Santiago.


Anísio Santiago foi empresário local que conquistou o mundo não por altas cifras em faturamento e sim pela excelência de qualidade de um produto que foi e continua sendo concebido por método de produção ainda não decifrado pelos produtores de Salinas e de outras regiões de Minas Gerais e do Brasil. O segredo é guardado pelos filhos que vem mantendo o processo de produção pelo mesmo método de origem. Anísio Santiago ultrapassou a barreira de empresário rural norte-mineiro que deu certo. Mais que isso, se tornou no símbolo de bebida que faz parte da história brasileira desde o século XVI, na década de 1530, quando o português Martin Afonso de Souza construiu engenhos na Capitania de São Vicente para a produção de açúcar e cachaça.

A Fazenda Havana, onde é produzida a bebida, se tornou em espécie de reduto sagrado do universo da cachaça brasileira ao longo das últimas décadas. O jornalista paulista Sidnei Maschio diz que “Em vários lugares ao redor do mundo, as visitas exigem mesmo um ritual específico, coerente com a sacralidade que eles encerram. A Fazenda Havana está nessa lista. A propriedade poderia ser comparada a um templo, pelo papel na recuperação e na divulgação das melhores qualidades da bebida genuinamente brasileira. O universo da cachaça tem duas histórias distintas, uma antes e outra depois da Havana”.

Anísio Santiago em vida foi uma lenda. Transformou-se no maior ícone da história da cachaça brasileira. É impossível falar ou escrever sobre cachaça sem tecer comentário ao seu nome e ao seu feito. Recentemente tem sido lançado vários livros sobre a cachaça brasileira por várias autores. Todos tecem comentários ao seu feito (ver referência bibliográfica abaixo). 

Osvaldo Santiago,
encimado pelo retrato de 

casamento dos pais na fazenda 
Havana, um dos sucessores na produção da 
cachaças Havana e Anísio Santiago.
O escritor e publicitário Renato Figueiredo, em seu livro "Estava no seu nariz, mas você não viu: descubra por que a cachaça brasileira pode ser muito mais suave e saborosa do que você imagina" (São José dos Campos, edição do Autor, 2011, págs. 87-88), faz a seguinte observação sobre Anísio Santiago:

"Até hoje o mito da Havana sobrevive, e é sonho de muita gente que respeita e admira a bebida. Não é difícil perceber que essa humildade de Anísio Santiago ter sido também uma das grandes responsáveis pelo destaque excepcional da marca. Surpreendia o fato de aguardar 10 anos para vender sua bebida, surpreendia o fato de que, mesmo com a fama, ele se conservava reservado e da mesma forma como sempre foi (...). Fato interessante é que a vitoriosa sem mantém até hoje com suas mesmas raízes de humildade, sendo produzida na mesma fazenda de outrora - desta vez pelos filhos e netos do produtor que fez sua fama. Enquanto isso, espalhados pelo mundo, histórias e produtos com inícios parecidos tiveram finais um pouco diferentes. Café, doce de leite, chocolates e até outras bebidas e produtos artesanais hoje viraram mercadoria sofisticada, objetos de estratégia de marketing e revista de luxo, e são vendidos nas melhores boutiques e nos melhores locais. E a Havana-Anísio Santiago também está lá com eles, só que com a mesma embalagem, sem campanhas de marketing nem pirotecnias publicitárias - mas com o mesmo valor de sempre."

Mesmo após a sua morte em 2002 ainda desperta curiosidade em muitas pessoas. Muito ainda se fala e escreve a seu respeito e do legado que deixou. Deixou grande lição de vida e demonstrou que é possível crescer e construir uma vida respeitável e obter a admiração de todos. Sempre permaneceu fiel aos seus ideais e princípios que acreditou serem verdadeiros.

Para o cachacier Maurício Maia, o centenário de Anísio Santiago é digno de registro e memória. Segundo o cachacier "São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e a qualidade que sempre marcaram as cachaças que ele produzia sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção em detrimento da qualidade."

Na opinião do advogado da família de Anísio Santiago, Dr. Cláudio Luiz Gonçalves de Souza, responsável pela espetacular vitória na justiça federal pelo retorno da marca Havana, a data comemorativa de centenário de nascimento de Anísio Santiago "É digna de registro e, por sua vez, deve ser eternizado como o exemplo de um homem, cidadão brasileiro que, com seu trabalho. conseguiu demarcar uma região do país, por vezes esquecida, representada pela cidade de Salinas e localidades em seu entorno, como o berço da produção da melhor cachaça do país". Acrescenta ainda que o legado de Anísio Santiago "Permanece e, por certo, permanecerá; uma vez que seu trabalho pioneiro, realizado ao longo de várias décadas de forma incansável e com muita tenacidade fez toda uma região se tornar referência na produção de cachaça de qualidade a partir da cachaça Havana".

A seguir, vários depoimentos de degustadores e especialistas sobre o feito de Anísio Santiago. 

Depoimentos

Historicamente, Anísio Santiago trouxe para Salinas fama e prestígio através da Havana. Soube valorizar a qualidade e agregar valor ao produto em mais de sete décadas de produção.” 
(JOSÉ ANTÔNIO PRATES, prefeito de Salinas).

Os filhos e netos de Anísio Santiago estão conscientes da responsabilidade de manter a tradição e o padrão de qualidade adquirido em décadas de produção da cachaça Havana-Anísio Santiago. A família tem um compromisso moral que não abrimos mão.” 

(OSVALDO MENDES SANTIAGO, filho de Anísio Santiago e atual sucessor na produção da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor.” 

(ISRAEL PINHEIRO, político, político e filho do ex-governador Israel Pinheiro).

Anísio Santiago escreveu uma grande história e se tornou uma lenda. Mas há muito mais por trás da saga da produção da cachaça Havana – Anísio Santiago. Para mim uma garrafa de Havana guarda muito mais que uma bebida rara, ela preserva história, memórias e lembranças. Na Fazenda Havana não é produzida apenas uma cachaça. É destilado um sonho, a realização e a perpetuação de um sonho muito antigo”. 

(JANE SALDANHA, jornalista).

Anísio Santiago é exemplo para produtores e comerciantes de cachaça do Brasil, pois representa valorização da qualidade da cachaça brasileira.” 
(OSWALDO BERNADINO JÚNIOR, empresário no ramo de bebidas, dono da Distribuidora Savana).

Anísio Santiago é uma lenda para nós. Do reconhecimento efetivo da Havana soube manter espírito investigativo e inovador na produção de cachaça, não se deixando deslumbrar pelo lucro que poderia ter.” 
(JOSÉ BONIFÁCIO DOS SANTOS, presidente da Confraria Clube da Cachaça de Brasília – DF).

Se cachaça fosse carro, a Havana seria uma Ferrari.” 
(MILTON LIMA, fundador do Cachaças.com).

"Há muitos anos que vários produtores se pautam pela Havana-Anísio Santiago para atingir um mais alto patamar de qualidade. Mas o mito da cachaça havana-Anísio Santiago é que confere à marca o status de ícone da cachaça brasileira."
(MAURÍCIO MAIA, cachacier e chef de cozinha. É autor do blog O Cachacier).

Pesquisar sobre a cachaça de Salinas, nos últimos cinqüenta anos, forçosamente incluirá a pesquisa da marca Havana. Discorrer sobre essa marca, cuja trajetória é assentada na simplicidade e no capricho quase obsessivo de seu proprietário em manter, ao longo de várias décadas, um elevado padrão de qualidade, invariavelmente requer que se teçam comentários sobre quem a idealizou, cuidou e a construiu.” 
(ELIAS RODRIGUES DE OLIVEIRA, mestre em Administração Rural).

Anísio Santiago ia contra as teorias de marketing. Imagine um político ou um vendedor de bugigangas rejeitar aparecer na Rede Globo? Ele não ia atrás de ninguém, as pessoas o procuravam como em romaria, tinha uma personalidade imantada. Inverteu a lógica vulgar e fez um marketing sólido, mais sólido que a nossa moeda. Apesar de ser proibido cunhar dinheiro, que é monopólio do estado, cunhou a Havana, pagando com ela seus empregados e suas compras. Anísio Santiago conseguiu ser uma lenda em vida, mesmo em cidade do interior onde os comentários são quase sempre negativos. ‘Aquele é o Anísio da Havana’, diziam orgulhosos os da terra aos amigos de fora, quando Anísio passava. A marca que criou cresceu e virou fetiche, invertendo a lógica criador criatura, pois a Havana é que era dele, sua subordinada”. 
(APOLO HERINGER LISBOA, escritor, médico e professor de medicina da UFMG).

"A Cachaça Havana-Anísio Santiago é uma referência nacional e internacional; é um modo de fazer; um estado de arte. Daí a razão da mesma ser considerada oficialmente “Patrimônio Cultural Imaterial” do município de Salinas, representando dessa forma todo o país. A Cachaça “HAVANA-Anísio Santiago” é um ícone; é um símbolo; é uma referência e ideal de perfeição que toda cachaça artesanal de qualidade aspira alcançar um dia."
(CLÁUDIO LUIZ GONÇALVES DE SOUZA, Mestre em Direito Empresarial, Professor Universitário, Escritor e Advogado da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

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Refefência bibliográfica:

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006, 292 páginas.