25 de agosto de 2016

DISTRITO DE FORTALEZA DE SALINAS

Imagem do distrito de Fortaleza de Salinas em 1900,
final do século XIX. Recenseamento realizado naquele
ano identificou 4.342 habitantes no distrito.
Fonte da imagem: Abdênago Lisboa/Apolo Heringer.

Por Roberto Carlos Morais Santiago

Originalmente o município de Salinas já foi muito extenso em território, sendo um dos maiores da região norte-mineira. Um dos distritos mais distante de Salinas (sede) era Fortaleza de Salinas (atual município de Pedra Azul) cerca de 150 quilômetros. Foi o primeiro a se emancipar. O processo de emancipação iniciou no dia 30 de agosto de 1911 quando da sanção da Lei Estadual nº. 556, que criou o município de Fortaleza. No dia primeiro de março de 1912 realizam-se as primeiras eleições. A instalação da 1ª Câmara de Vereadores do novo município ocorreu no dia 1º de junho de 1912 em Salinas. Tomaram posse os eleitos: Pacífico Soares de Faria (eleito presidente da Câmara e agente executivo - cargo equivalente a prefeito atualmente),  João de Lima Pires, Hormino de Almeida, Alcebíades Antunes de Oliveira, Carlos Américo da Cunha Peixoto, João da Costa Fernandes e João da Rocha Medrado. O povoado de Cachoeira de Pajeú também desmembra-se de Salinas e integra o território do novo município de Fortaleza na condição de distrito. Em 1943, após realização de plebiscito local, o nome do município é alterado para Pedra Azul.

Hasteamento de bandeira na instalação da 1ª Câmara de Vereadores de Fortaleza no dia 1º de junho de 1912.
A banda que toca é de Salinas.
Fonte da imagem: Abdênago Lisboa/Apolo Heringer.
Posted by Picasa

__________

Referência bibliográfica: 

SANTIAGO, Luis. SOUZA, Maria das Graças Cordeiro de. Pedra Azul: cinco visões de uma cidade. Pedra Azul, 1996.

LIVRO DE 1869 É ADQUIRIDO POR SALINENSE EM 1874

Livro raro de 1869.
Por Roberto Carlos Morais Santiago

Até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o francês era a principal língua estrangeira estudada no país. O inglês não tinha a influência de hoje. Em Salinas não era diferente. 

A prova disso é o livro "Nouveau Dictionnaire Portugais-Français", edição de 1869 (século XIX), 1238 páginas, autoria de José Ignácio Roquete. Originalmente foi adquirido no dia 12 de dezembro de 1874 por um salinense desconhecido (seu nome está rasurado no livro). Na época Salinas ainda era distrito de Rio Pardo, pois veio emancipar-se somente em 1880. 

Em 2 de novembro de 1904 o livro foi adquirido por José Santiago (1873-1945), este o patriarca da família Santiago em Salinas, ao custo de 19.200 réis. Em 1945 o livro passou a ser do filho Arlindo Santiago (1909-2011). Pai e filho foram pessoas muito cultas em Salinas. Deixaram grande acervo de livros antigos. 

Em 2011 o editor deste blog ganhou o livro oferecido pelo seu tio-avô Arlindo Santiago. Uma relíquia de livro que já possui 147 anos de edição e 112 anos em mãos de um Santiago.

3 de julho de 2016

XUÁ CLUBE CAMPESTRE DE SALINAS

Primeiro clube de Salinas.

Por Roberto Carlos Morais Santiago


Até a década de 1960, Salinas não possuía clube recreativo. A juventude salinense sentia essa lacuna. Certo dia, numa ensolarada manhã após a missa na Igreja Matriz de Santo Antônio, os amigos Osvaldo Bernardino, Rafael Daconti e Sérgio Rodrigues se encontraram na farmácia de Osvaldo Bernardino para discutir a ideia de construir um clube na cidade.

O assunto logo percorreu positivamente na sociedade salinense e em pouco tempo foi arrecadado quantia de três milhões de cruzeiros para aquisição de terreno. A primeira tentativa de comprar um terreno foi na Mestiça, mas não deu certo. Posteriormente, foi localizado terreno ideal nas margens do rio Ribeirão de propriedade do fazendeiro Geraldo Loiola. Inicialmente não aceitou vender terreno para construir o clube. Porém, acabou cedendo e fixou o valor do terreno em três milhões de cruzeiros. O negócio foi fechado.

Da ousadia e tenacidade de um grupo de amigos surgiu clube que faz parte da história de Salinas. Foi inaugurado no dia 15 de agosto de 1966, originalmente com o nome de Ribeirão Campestre Clube. No dia 1º. de setembro do mesmo ano foi rebatizado para Xuá Clube Campestre. Historicamente, o clube tem participação importante na formação cultural, social e esportiva de milhares de salinenses.


Primeiro presidente do clube.
Os sócios fundadores do Xuá Clube Campestre de Salinas foram: Sérgio Aberto Rodrigues, Antônio Rafael Daconti, Osvaldo Bernardino, Noé Corrêa, Florisberto Cândido de Oliveira, Fidélis Soares Guimarães, Geraldo Paulino Santanna, Carlos Humberto de Almeida, Délo Bernardino, José Eraldo Corrêa, Fábio Assunção, João Costa, Jair Henrique de Souza, Jaime Cardoso de Araújo, Ivo Miranda de Morais, Geraldo Pereira Borges, Carlos Aloísio Corrêa, José Oraldo Mendes, Dorival Bernardino, Carlos Garcia Mojato, José Joel Ribeiro da Cruz, José Osvaldo Lima Soares, Fábio Freire, José Pacífico Oliveira Neto, Moacir Ribeiro, Antônio Fontenelle Ribeiro, Oscar Cangussú Fernandes, Valdeir Soares Guimarães, Frederico Wilson Bitencourt, Geraldo Costa, Artur Mendes Filho, Rodrigo Magalhães, Lineu Martins, Luiz Gonzaga Martins, Mariano Dias Viana, João de Deus Mendes, Manoel Brito, Noeno Corrêa.

4 de junho de 2016

JUVENTINO FERREIRA NUNES

Juventino Ferreira Nunes,
líder político da facção "Fino".
Por Roberto Carlos Morais Santiago


O blog História de Salinas investigou e descobriu período violento na história do município de Salinas envolvendo personagens que disputavam o poder político local no final da década de 1920.

Duas correntes políticas dominavam o panorama político, sendo que a facção o "Fino" era liderada por Juventino Ferreira Nunes  que mantinha a situação política. 

A outra facção era o "Grosso", liderada pelo Cel. Idalino Ribeiro, presidente da Câmara dos Vereadores e Agente Executivo (cargo equivalente a prefeito atualmente). Este aspirava o comando político local.

Em 1927 as duas facções se envolveram em uma disputa ferrenha pelo domínio do jogo político cujos desdobramentos foram violentos.

Juventino Ferreira Nunes, natural de São João Batista (atual município mineiro de Itamarandiba), era líder nato, culto, mestre do vernáculo, músico, normalista, professor de português, farmacêutico e dono de farmácia. Mais, era muito querido pela população salinense. Tornou-se político mais por imposição e influência do amigo e então chefe político local Cel. Rodrigo Cordeiro.

A chegada do jovem Clemente Medrado Fernandes, filho de André Fernandes, recém formado em medicina para clinicar em Salinas indiretamente mudou os rumos da política do município. Este, além de clinicar, montou uma farmácia e passou fazer concorrência com a farmácia de Juventino Ferreira Nunes. O negócio não prosperou em face da clientela cativa do concorrente. Estava difícil concorrer com a farmácia de Juventino.

Cel. Idalino Ribeiro,
rival político de
Juventino Ferreira
Nunes, e líder da
facção "Grosso''.
André Fernandes, que pertencia a facção "Grosso", não se conformando com o infortúnio do filho no ramo farmacêutico, resolveu criar ambiente político para expulsar Juventino Ferreira Nunes de Salinas. Assim, seu filho poderia clinicar e vender seus remédios sem concorrência. Obstáculos foram sendo criados visando sua expulsão do município.

Até meados dos anos 1920 havia um circulo de homens políticos famosos que faziam parte de somente uma facção política que comandou Salinas por várias décadas desde que o município fora criado em 1880, final do século XIX. 

Cel. Rodrigo Cordeiro foi um dos primeiros chefes políticos de Salinas. Através dele a política local foi transmitida para Juventino Ferreira Nunes com o aval de outros políticos como Idalino Ribeiro, Luiz Gomes de Oliveira, Olyntho Prediliano de Santanna, Procópio Cardoso, Catolino Gomes de Oliveira, dentre outros.

Logo houve cisão desse grupo político criando-se duas facções, sendo que uma era o "Fino", comandada por Juventino Ferreira Nunes, e a outra era o "Grosso", comandada pelo Cel. Idalino Ribeiro.

A disputa política local se intensificou e chegou a um ponto de confronto extremo de violência. Em uma reunião na residência de André Fernandes, que pertencia a facção "Grosso" e tinha interesses pessoal em destronar Juventino Ferreira Nunes,  ficou acertada a ida do advogado Luiz Gomes de Oliveira a Lavras (atual Vitória da Conquista), na Bahia, onde este contrataria o temido jagunço Manoel Gusmão, popularmente conhecido por Maneca Primo.

Poucos dias depois chega a Salinas Maneca Primo com outros 28 jagunços fortemente armados para dar cobertura ao grupo "Facção" ao preço de um conto de réis por cabeça. Ficaram alojados na casa do advogado Luiz Gomes de Oliveira. Havia muita movimentação na cidade e a população ficou em polvorosa. O ambiente estava ficando politicamente explosivo.

Desconfiado de tanta movimentação da facção rival, Juventino Ferreira Nunes reúne seus amigos e comandados, entre eles os membros da família Moreira, da Serra do Anastácio, João Gambeira, Diomercindo Victor de Souza, entre outros, que ficaram entrincheirados em sua casa que ficava em frente a Vargem (onde está localizado o atual mercado municipal). O subdelegado do distrito de Taiobeiras (que pertencia a Salinas), Procópio Moreira dos Santos, foi chamado às pressas para defender o chefe político. A Polícia Militar em Salinas, comandada pelo sargento Sebastião  Christiano de Faria, ajudou na defesa da residência de Juventino Ferreira Nunes.

Com a casa cercada pelos jagunços da facção "Grosso", no dia 1º. de março de 1927, numa terça-feira de carnaval, teve início do maior tiroteio que se tem notícia da história de Salinas. A facção "Fino" de Juventino Ferreira Nunes e companheiros se defenderam, com o apoio da autoridade policial, trocando tiros com os jagunços que terminou no dia seguinte. Ambos os lados utilizaram carabinas, cravinotes, espingardas e revólveres. Segundo informações de pessoas da época foram disparados mais de 2 mil tiros contra a residência de Juventino Ferreira Nunes, embora ninguém tenha morrido.

Cercado, logo Juventino Ferreira Nunes se deu por vencido, mais pela falta de água na residência cortada pelos jagunços e pela segurança da esposa e filhos. Foi vencido pelo cansaço. Sua esposa, Maria Pimenta, popularmente conhecida por dona Zinha, estendeu uma toalha branca por uma janela pedindo paz. Logo, a mesma dona Zinha saiu de sua casa, sob  complacência dos jagunços, caminhou pelas ruas, passou pela Igreja, rezou, e foi até a casa do Cel. Idalino Ribeiro, que aparentemente tinha ficado neutro no conflito, uma vez quem apareciam no comando do conflito contra Juventino Ferreira Nunes eram André Fernandes, o advogado Luiz Gomes de Oliveira e o irmão Catolino Gomes de Oliveira. Dona Zinha fora dizer ao Cel.   Idalino Ribeiro que o marido Juventino estava disposto a se render pois não queria derramamento de sangue.

Com isso, fora montada uma comissão liderada por Clemente Medrado Fernandes para impor os termos da rendição. No dia seguinte a comissão foi cumprir sua missão. Clemente Medrado Fernandes foi acompanhado do jagunço Maneca Primo e João Rodrigues Pio, ambos armados. Juventino Ferreira Nunes recebeu a comissão e ao perceber a presença do jagunço Maneca Primo, disse aos presentes:

- Se não fosse a presença de mulher e filhos, preferia morrer traspassado por uma bala baiana, mas honrando meu território mineiro.

Assustado, Maneca Primo manobrou a carabina para atirar em Juventino em sua própria casa, mas João Rodrigues impediu desviando o cano da arma. Negociada a rendição, Juventino Ferreira Nunes foi levado para a residência do Cel. Idalino Ribeiro. Todas as pessoas que estavam na residência durante o conflito foram presas e levadas para a cadeia.

Cel. Idalino Ribeiro deu prazo de 24 horas para Juventino Ferreira Nunes sair da cidade para nunca mais voltar. Este saiu pelas fazendas em animais cedidos por Osório Martins dos Anjos acompanhado por João Costa,  passando por Bandeira (atual Rubelita), Araçuaí, Diamantina, até chegar a Belo Horizonte. De lá foi para a cidade de Manhuaçu, onde em pouco tempo foi nomeado diretor de uma escola pública. Nunca mais retornou a Salinas. Em Manhuaçu foi feito um busto em sua homenagem pelo seu espírito de liderança e capacidade intelectual na escola em que atuou. Era um idealista.


Casa que pertenceu a Juventino Ferreira Nunes onde ocorreu o mais violento conflito pela disputa do poder político de Salinas em 1927.
Em Salinas, após o conflito, Cel. Idalino Ribeiro tornou-se chefe político de fato e direito na região. De 1930 a 1958 impôs todos os prefeitos da cidade até perder a eleição de 3 de outubro de 1958, sendo derrotado pelo sobrinho Geraldo Paulino Santanna para eleições municipais. Ressalta-se que de 1918 a 1930, Cel. Idalino Ribeiro ainda foi presidente da Câmara dos Vereadores e Agente Executivo (equivalente a prefeito atual).

Quanto a Clemente Medrado Fernandes este prosperou em Salinas como empresário e político. Tornou-se deputado federal. Foi responsável pela criação da Escola Agrícola de Salinas em 1953 com recurso do governo federal, que leva seu nome.

Historicamente, percebe-se que o líder político Juventino Ferreira Nunes foi derrubado por um jogo político orquestrado para que a facção política o "Grosso" tomasse o poder local, cujo líder era Idalino Ribeiro. Juventino fez a passagem política do Cel. Rodrigo Cordeiro para o Cel. Idalino Ribeiro. No processo político ficou evidente que foi vítima de sistema político e econômico vigente cuja elite queria o poder a qualquer custo, mesmo que as ações fossem extremas e drásticas como aconteceu. Era a prática coronelista praticada no Brasil no período da República Velha que vigorou até 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o poder e impôs o regime do Estado Novo que vigorou por cerca de 15 anos.

Quanto a Maneca Primo e seus jagunços, após o conflito, foram expulsos pelas autoridades policiais de Salinas, passando pelo distrito de Taiobeiras. Ali criaram problemas por três dias bebendo e farreando sem nada pagar e criando desafetos. Seguiram para São João do Paraíso e fizeram o mesmo que em Taiobeiras. Desentendeu-se com Antônio Pena, um morador local e, numa briga entre os dois, foi morto. Fatídico fim para um jagunço que foi determinante para a reviravolta política ocorrida em Salinas.

Finalizando, para quem queira entender com mais detalhes os meandros da política de Salinas da primeira metade do século XX, o blog História de Salinas recomenda a leitura da referência bibliográfica abaixo.
__________

Referência blibliográfica:

LISBOA, Abdênago. Octacilíada: Uma Odisséia do Norte de Minas. B. Horizonte: Canaã,
          1992.
MIRANDA, Avay. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos. Brasília: Thesaurus, 1997.
SANTANNA, Geraldo Paulino. O Caminho de Volta: A Travessia do Deserto. B. Horizonte,
          2005.

3 de junho de 2016

CACHAÇA HAVANA, 73 ANOS DE HISTÓRIA

1943-2016: 73 anos de história da principal
marca de cachaça artesanal do Brasil.
Por Roberto Carlos Morais Santiago


Tradicionalmente a produção de cachaça na região de Salinas se inicia no mês de junho e se estende até dezembro. O solo e clima da região propicia a produção de cachaça em fazendas escondidas em colinas e serras da região. Nas últimas décadas a cachaça de Salinas alcançou tamanha projeção que é reconhecida como a "Capital Mundial da Cachaça de Alambique". Salinas virou sinônimo de cachaça e faz parte da história da cachaça brasileira. Recentemente ganhou um museu da cachaça construído pelo governo de Minas Gerais. Tem, ainda, um festival anual de cachaça que atrai grande número de turistas ávidos por degustar as mais de sessenta marcas ali produzidas. Atualmente, o agronegócio da cachaça em Salinas já representa cerca de um terço da economia do município.

Ao dar início da produção de cachaça nas fazendas da região, uma terá motivo especial para comemorar: a fazenda Havana, que fica no sopé da Serra dos Bois, entre os municípios de Salinas e Novorizonte. A produção de cachaça teve início em 1943 e, desde então, se transformou numa espécie de reduto sagrado da cachaça brasileira. Da fazenda Havana sai a cachaça mais antiga de Salinas e região: a Havana. A projeção nacional e internacional da cachaça de Salinas teve início nesta fazenda de propriedade do produtor Anísio Santiago (1912-2012). A cachaça de Anísio Santiago fez tanto sucesso que estimulou outros fazendeiros seguirem o mesmo caminho. 

Nestes setenta e três anos de produção de cachaça, Anísio Santiago e filhos criaram método de alambicagem e envelhecimento da cachaça Havana, agora também com a marca Anísio Santiago, até hoje não decifrado pelos concorrentes. E, mais, se tornou numa das marcas de cachaça mais caras do país. Ainda assim, a produção continua restrita. A família de Anísio Santiago vem mantendo o mesmo método de fabricação forjado pelo patriarca. As marcas de cachaça Havana e Anísio Santiago é exemplo de sucesso. A longevidade da produção é prova inconteste disso. Bom para Salinas e para a cachaça brasileira. Marcas históricas como a Havana são importantes para o agronegócio da cachaça no Brasil. Serve de referência para outros produtores. Ao longo de sete décadas de produção a cachaça Havana vem demonstrando que é possível fazer sucesso, ainda que a estrutura de produção seja pequena e que o alambique esteja instalado longe dos lugares de consumo.



A cachaça Havana é reconhecida no país e no exterior como um das mais tradicionais marcas de cachaça do Brasil. É apreciada por degustadores, especialistas e personalidades somente em determinadas ocasiões. É guardada como se fosse um tesouro dada a sua preciosidade. Centenas de reportagens em livros e revistas em diversas épocas registraram o feito histórico da cachaça produzida por Anísio Santiago. 

Osvaldo Santiago, filho e sucessor de Anísio Santiago diz que a "tradição e qualidade da cachaça Havana-Anísio Santiago permanecem. Sabemos da importância histórica da cachaça produzida em nossa fazenda. Não abrimos mão do legado deixado pelo nosso pai. Buscamos o centenário da nossa cachaça com esmero e capricho. Muita gente não entende, mas não buscamos riqueza. A fazenda Havana continua do mesmo jeito que ele deixou"

O jornalista Sidnei Mashio recentemente fez belo artigo sobre a fazenda Havana para o site Cachaças.com onde diz que o universo da cachaça tem duas histórias distintas: uma antes e outra depois da fazenda Havana. Preservar a fazenda é manter intacta parte da história da cachaça brasileira.

É com esse espírito de preservação histórica que a cachaça Havana vem se mantendo no tempo e no espaço em busca do seu centenário. O tempo virou companheiro inseparável dessa magnífica marca de cachaça produzida com esmero e capricho na fazenda Havana. Anísio Santiago faleceu em 2002 aos noventa e um anos, mas o seu feito continua sendo perpetuado pelos  filhos. Um exemplo de empreendimento familiar que se perpetua ao longo do tempo num país em que a maioria das empresas fecham no primeiro ano de funcionamento.

O blog História de Salinas parabeniza a família de Anísio Santiago. Afinal, setenta e três anos de produção é um feito espetacular que merece registro e comemoração. Deus protege quem trabalha e produz com honestidade.

Depoimentos

"Historicamente, Anísio Santiago trouxe fama e prestígio para a cachaça de Salinas através da Havana. É um dos maiores patrimônios culturais da nossa terra." (JOSÉ ANTÔNIO PRATES, ex-prefeito de Salinas).

"A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor." (ISRAEL PINHEIRO FILHO, engenheiro, político e filho de Israel Pinheiro, ex-governador de Minas Gerais).

"São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e qualidade. Anísio Santiago soube produzir sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção." (MAURÍCIO MAIA, cachacier).

"Anísio Santiago é referência aos produtores de Salinas, pois viam nele um expoente no processo de produção de cachaça artesanal de qualidade." (ANTÔNIO EUSTÁQUIO RODRIGUES, produtor de cachaça em Salinas sob as marcas Boazinha, Saliboa e Seleta).


"A cachaça Havana é a Ferrari das caninhas." (MILTON LIMA, cachacier e estudioso da cachaça).

__________

Referência bibliográfica:

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006.





31 de maio de 2016

FALECIMENTO DE OSWALDINA SANTIAGO

Por Roberto Carlos Morais Santiago

A salinense Oswaldina Santiago faleceu em casa aos 99 anos de idade no dia 29 de janeiro de 2016 na cidade norte-americana de Boynton Beach, Flórida. O seu sepultamento ocorreu no Palm Beach Memorial, na cidade de Lantana, também na Flórida.

Filha de José Santiago (1873-1944) e Virgínia Celestina Santiago (1882-1965) nasceu no dia 16 de maio de 1917 no povoado de Lagoinha, zona rural do município de Salinas. Era a caçula de doze filhos e a última a falecer.

Foi casada com José de Abreu Lima e deixou os filhos Geraldo Santiago de Abreu e Mirtes Santiago de Abreu, sete netos (Berenice, Elaine, Elisângela, Fábio, Hadson, Júlio e Neimar) e onze bisnetos (André, Artur, Daniel, Gabriella, Israel, Júlia, Luan, Osvaldo, Rebecca, Sabrina e Scott), deixando um hiato familiar que agora se perpetua com seus sucessores.

A família Santiago surgiu em Salinas no ano de 1898, final do século XIX com os patriarcas José Santiago e Virgínia Celestina Santiago. Ele oriundo de Diamantina, Minas Gerais; e ela oriunda de Urandi, Bahia.



3 de maio de 2016

"EFEMÉRIDES RIOPARDENSES"

Capa do livro.
Por Roberto Carlos Morais Santiago

O italiano Cônego Newton Caetano de Angelis além de ser padre foi cultor das letras, historiador e exímio pesquisador no Brasil. Deixou ao povo da microrregião de Salinas (Alto Rio Pardo), norte de Minas Gerais, grande obra literária digna de todos os elogios.

O seu livro intitulado “Efemérides Riopardenses” (Salinas: R & S Arte Gráfica, 1998, 4 volumes) traz extensa pesquisa de fatos históricos e genealogia de famílias que povoaram a região de Salinas desde os tempos da colonização lusitana até 1972, final do século XX.

A obra literária é resultado de vinte e sete anos de pesquisa. São citados 2.980 fatos históricos e cerca de dez mil pessoas. Se você é da região de Salinas e quer conhecer seus antepassados pode começar sua pesquisa pelo livro “Efemérides Riopardenses” e vai se surpreender. O livro é riquíssimo em informações históricas sobre a origem dos municípios da região e dos seus pioneiros.

Infelizmente o livro não é encontrado em livrarias. Pouquíssimas bibliotecas da região o possuem. Pelo seu valor histórico merece uma nova edição que poderia ser realizada pelas prefeituras da região em parceria com os familiares do Autor. Fica a sugestão do blog História de Salinas.

1 de maio de 2016

CORONEL IDALINO RIBEIRO

Cel. Idalino Ribeiro (1879-1973).
Por Roberto Carlos Morais Santiago


Coronel Idalino Ribeiro é um dos maiores personagens políticos da história de Salinas. Foi chefe político de fato e direito na região de Salinas por quase meio século. Pouco se sabe sobre sua pessoa. Há poucos registros. Poucos livros abordam sua trajetória política, como "Octacilíada: Uma Odisséia do Norte de Minas", de autoria de Abdênago Liboa, e "O Caminho de Volta - A travessia do Deserto", autoria de Geraldo Paulino Santana. São dois livros interessantes que o blog História de Salinas recomenda para quem deseja entender os meandros da política salinense no século XX.

Idalino Ribeiro, filho de João Nepomuceno e Benevinda Costa Ribeiro, nasceu em Salinas no dia 3 de maio de 1879, final do século XIX. Sua família é uma das pioneiras de Salinas com raízes em Rio Pardo de Minas. Em 11 de julho de 1904 se casou com Laudelina Chaves, filha única do rico fazendeiro e político José Chaves. Da união teve quatro filhos: Odete Chaves Ribeiro, José Chaves Ribeiro, Osmane Ribeiro e Severina Chaves Ribeiro.

Ainda jovem, com o apoio do deputado Edmundo Blum, que representava a região do Alto Rio Pardo, foi nomeado fiscal de impostos de consumo do Estado com salário de 120$000 réis e mais 5% da renda. A sua área de fiscalização era imensa alcançando os municípios de Salinas, Grão Mogol, Araçuaí, Pedra Azul, Jequitinhonha, até o Salto da Divisa. Ganhou, ainda, patente para negociar fumo. Em vida se firmou como pessoa influente, comerciante e político.

Foi chefe político em Salinas por quase meio século. De 1918 a 1930 foi Agente Executico (cargo equivalente a prefeito atual) que era ocupado pelo presidente da Câmara de Vereadores. De 1930 a 1959, impôs todos os prefeitos (nomeados ou eleitos) do município, quando seu candidato foi derrotado pelo sobrinho e emergente político emergente Geraldo Paulino Santanna. A partir daí entrou em dacadência política.

Em 1923, foi responsável pela construção e inauguração de ponte de madeira ligando o centro ao bairro São Geraldo. O construtor responsável foi o carpinteiro Viroti, de Jequitaí, que ganhava 15$000 por dia, muito dinheiro para a época.

Em 1928, com a chegada dos primeiros automóveis em Salinas, promoveu a construção da estrada de rodagem de Salinas a Brejo das Almas (atual Francisco Sá) ficando pronta em 1929. O governador Olegário Maciel Dias, de 1931 a 1933, refez a estrada, pagando o conto de réis por quilômetro com intuito de dar serviço para grande número de desempregados que estavam criando problemas para o Estado. O Coronel Idalino Ribeiro financiava a construção sendo reembolsado pelo Governo de Minas posteriormente.

Palacete especialmente construído em 1933 pelo Cel. Idalino Ribeiro
para receber o governador Benedito Valadares.
Em 1933, como forma de demonstração de poder e prestígio político construiu palacete residencial especialmente para receber o governador Benedito Valadares que veio participar da inauguração da reforma da estrada que liga Salinas a Brejo das Almas. Por muitos anos a política salinense foi articulada nas salas deste palacete.

No período em que esteve no poder, toda população de Salinas e região, diretamente ou indiretamente, era influenciada pelo Cel. Idalino Ribeiro. A sua palavra era derradeira e decisiva. Por respeito ou medo todos o reverenciavam. Existiam outros coronéis em Salinas de menor expressão em sua época como Bernadino Costa, Procópio Cardoso, Moysés Ladeia. É fato inconteste que o  Cel. Idalino Ribeiro estava acima de todos. Dizem que sua ascensão ao poder político em Salinas foi à força e contou com apoio de jagunços baianos e parte da elite local. 

Representou fielmente na região de Salinas o papel de chefe oligárquico numa época em que oligarquias familiares eram células importantes no xadrez político da República Velha no Brasil (1889-1930) e da era Getúlio Vargas (1930-1945).

Cel. Idalino Ribeiro faleceu em Belo Horizonte no dia 28 de outubro de 1973, aos noventa e quatro anos. Seguramente figura no rol dos homens mais importantes da história de Salinas.


Artur Mendes, Cel. Idalino Ribeiro, Dr. Anthero Ruas e Antônio Neves.
(Fonte da imagem: Abdênago Lisboa)

19 de abril de 2016

SALINAS, DÉCADA DE 1940


1943 - Antigo prédio da prefeitura de Salinas na rua Barão do Rio Branco
onde atualmente existe uma agência bancária do Banco do Nordeste do Brasil.

1943 - Feirantes no antigo mercado velho.

1943 - Antigo mercado velho.
1943 - Caminhão transportando mercadorias e pessoas na estrada de rodagem Salinas - Montes Claros.
1943 - Acidente entre caminhão e dois carros na estrada de rodagem Salinas - Montes Claros.
1943 - Carro atolado na estrada de rodagem Salinas - Montes Claros.
1943 - Visita do Secretário Estadual de Obras Públicas, Demerval José Pimenta 
(sexto da esquerda para direita) a Salinas.

11 de abril de 2016

PRIMEIRO CÓDIGO DE POSTURAS DE SALINAS É DE 1885



Mercado velho de Salinas
(gravura de Rafael Daconti).

Por Roberto Carlos Morais Santiago

O primeiro código de posturas de Salinas foi elaborada e aprovado pela 1ª. Câmara de Vereadores de Salinas sancionada pelo vice-presidente da província de Minas Gerais, Antônio Teixeira de Souza Magalhães, por meio da Resolução provincial nº. 3.369, de 9 de outubro de 1885, na capital Ouro Preto. 

Trata-se de documento histórico de Salinas que revela interessantes aspectos sociais e econômicos do município no final do século XIX, como disposição urbanística, obras públicas, limpeza urbana, saúde pública, segurança pública, moral e bons costumes, zona rural, tributação, dentre outras coisas. Vale dar uma conferida no documento abaixo. Boa leitura!

RESOLUÇÃO PROVINCIAL Nº 3.369, DE 9 DE OUTUBRO DE 1885
(Aprovação provincial do Primeiro código de posturas de Salinas)












25 de fevereiro de 2016

CEMITÉRIO DE SALINAS FAZ 107 ANOS

O cemitério foi construído em 1909.
O atual cemitério de Salinas está localizado no centro da cidade em terreno doado por Dona Ana Maria de Araújo, no dia 15 de fevereiro de 1858, início da segunda metade do século XIX. Nesta época Salinas era distrito da Vila de Rio Pardo. Entretanto, o cemitério somente veio a ser construído em 1909 a mando dos políticos mandatários Virgìlio Avelino Grão Mogol e João Porfírio Machado. 

Até então os mortos eram enterrados ao lado da igreja antiga edificada em terreno onde atualamente está localizada a atual Escola Estadual Dr. João Pórfírio em frente à antiga praça do mercado velho. 

O cemitério de Salinas não comporta mais novos sepultamentos. Ainda assim, precisa ser preservado pois grande parte de sua história está ali enterrada. Preservar a memória dos mortos é preservar a própria história.

21 de fevereiro de 2016

ANTIGO GRUPO ESCOLAR DR. JOÃO PORFÍRIO


Fachada do antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio.


Por Roberto Carlos Morais Santiago

Foto rara de 1915, início do século XX, de fachada do antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio, primeira escola de Salinas. O prédio não existe mais. A centenária escola foi construída entre os anos de 1908 e 1910, onde atualmente encontra-se instalada agência do Banco do Nordeste na rua Barão do Rio Branco. A escola teve custo de cerca de cinco contos de réis do governo mineiro, somados à contribuição do povo salinense que muito queria uma unidade de ensino na cidade. A escola foi instalada no dia 23 de setembro de 1911.
Ao fundo subida da rua Barão do Rio Branco e o antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio.
Foto de 1922 - Inauguração da ponte de madeira.

14 de fevereiro de 2016

O LENDÁRIO ANÍSIO SANTIAGO

Anísio Santiago (1912-2002).

O blog História de Salinas não poderia deixar passar em branco a data de nascimento de Anísio Santiago que se comemora no dia 12 de fevereiro, tido como o mais emblemático produtor da história da cachaça brasileira. A história de vida do lendário produtor da cachaça Havana & Anísio Santiago - reconhecida ícone da mais legítima bebida brasileira: a cachaça - é interessante sob todos os aspectos. Em vida foi uma lenda tal o respeito e admiração pela cachaça que produzia. Mesmo após sua morte em 2002, o seu legado continua. Pode-se afirmar que a história da cachaça brasileira se refere a antes e depois de Anísio Santiago.



Por Roberto Carlos Morais Santiago


Se estivesse vivo, Anísio Santiago faria 104 anos de vida no dia 12 de fevereiro que se passou. A data é digna de registro e comemoração, pois se trata de um dos personagens mais importantes da história de Salinas e do universo da cachaça no Brasil.

A trajetória de vida de Anísio Santiago transcendeu os limites de sua amada terra. Com seu jeito peculiar de simplicidade soube forjar marca de cachaça: a Havana & Anísio Santiago, cujo método de produção e envelhecimento, ainda mantido pelos seus sucessores, é referência em todo o país. Pode-se afirmar, sem margem de dúvida, que Anísio Santiago é o maior personagem da história da cachaça brasileira. É praticamente impossível discutir o assunto cachaça sem tecer o seu nome e o seu legado.

A família Santiago surgiu no município norte-mineiro de Salinas no ano de 1898, final do século XIX, através do pioneiro José Santiago (1873-1944). Filho de Justino Santiago e Anna Maria de Jesus, nasceu na cidade mineira de Diamantina, localizada no Alto Jequitinhonha.

Ainda jovem, em 1894, José Santiago foi estudar medicina em Salvador. Por razões desconhecidas desistiu do curso no segundo ano. Segundo Arlindo Santiago (1909-2011), filho de José Santiago, o motivo da desistência foi a Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior da Bahia, que mobilizou milhares de soldados do governo federal para combater o temido Antônio Conselheiro. Em dois anos de conflito milhares de pessoas morreram.

Anísio Santiago.
Retornando para Minas Gerais, José Santiago foi morar e trabalhar como professor na cidade de Medina, no Vale do Jequitinhonha. Ali conheceu a baiana Virginia Celestina (1882-1965), natural de Urandi, com quem se casou em 1896.

Em 1898, mudou-se com a esposa para Salinas, também para trabalhar como professor, embora não se tenha registro em qual escolar. A convite de um amigo foi lecionar no povoado de Lagoinha, zona rural do município, isso no ano de 1900.

O povoado de Lagoinha, naquela época, tinha importância estratégica tendo em vista que era parada obrigatória de pessoas e transportadores de mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros.

Em 1903 adquiriu a fazenda Bonfim, próxima ao povoado, onde fixou moradia, tornando-se produtor rural, além de professor. José Santiago tornou-se pessoa muito assediada na região pelo fato de ter conhecimento de medicina, além de ser professor. Em pouco tempo tornou-se uma espécie de líder do povoado de Lagoinha e região.

Da união de José Santiago e Virginia Celestina surgiu prole numerosa, fato muito comum na estrutura familiar do início do século XX. Foram doze filhos: Antônio Santiago (1897-1950), Maria Santiago (1899-1953), Leôncio Santiago (1901-1945), Silvio Santiago (1912-1986), Santinha Santiago (1908-2001), Arlindo Santiago (1909-2011), Anísio Santiago (1912-2002), José Elzito Santiago (1915-1945), Anita Santiago (1913), Osvaldina Santiago (1917) e Osvaldir Santiago (1919-2007). Dos doze filhos, somente o primogênito Antônio Santiago nasceu em Medina, sendo que os demais em Salinas.

José Santiago veio a falecer em 1944, aos sessenta e sete anos e a sua esposa, Virginia Celestina, em 1965, aos oitenta e três anos. Foram precursores da família Santiago em Salinas, cujo tronco da árvore genealógica tem origem na região de Diamantina.

Da prole numerosa de José Santiago o destino reservou ao sétimo filho, Anísio Santiago, trajetória de vida que o tornaria parte da história de Salinas. Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1912, na fazenda Bonfim, zona rural de Salinas. Ali cresceu e viveu sua infância e adolescência ao lado dos pais e irmãos.

Aos doze anos de idade, escondido do pai, experimentou beber cachaça pela primeira vez. Não gostou. Desde então jamais bebeu cachaça em toda a sua vida. Entretanto, quis o destino que a cachaça tivesse importância fundamental em sua vida.

O jovem Anísio Santiago aprendeu vários ofícios. Foi carpinteiro, tropeiro, comerciante, motorista e fazendeiro. Como tropeiro transportou mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros na década de 1930.

De tropeiro tornou-se motorista de um Ford F-8, que adquiriu no final da década de 1930. Foi um dos primeiros motoristas da região de Salinas e foi testemunha ocular da modernidade que aos poucos chegava através das estradas empoeiradas e esburacadas.

Em 1937, aos 25 anos, se casou com Adélia Mendes (1916-2007), então com 21 anos de idade. Deixou o povoado de Lagoinha e fixou residência na cidade de Salinas, onde continuou a exercer as atividades de comerciante e motorista.

Alguns anos depois, em 1942, comprou a fazenda Havana que pertencia a viúva de João Soares, Maria Virgínia Soares, localizada no sopé da Serra dos Bois, distante cerca de doze quilômetros da sede do município. Para lá mudou com a esposa no ano seguinte. Iniciava-se nova fase na vida do então jovem Anísio Santiago.

Fazenda Havana.
Em 1943, estabelecido definitivamente na fazenda Havana, iniciou produção de cachaça em pequeno pequeno alambique que já existia na fazenda dos antigos proprietários. Em pouco tempo a produção de cachaça se tornou na principal atividade econômica. A produção era vendida a granel. Somente em  1946 constituiu empresa e passa a identificar seu produto através da marca Havana, reconhecida como pioneira na região de Salinas. Até então os produtores do município e região produziam e vendiam cachaça a granel aos comerciantes e tropeiros da região desde o final do século XIX.

Em 1947, em parceria com o irmão Sílvio Santiago e o amigo Aníbal Gonçalves das Neves, comprou caminhão Chevrolet Lordmaster, importado dos Estados Unidos. Ele próprio foi ao Rio de Janeiro buscar o veículo. A viagem durou seis dias. Logo comprou as partes do irmão e do amigo Aníbal. Com o caminhão comercializava sua cachaça em Salinas, região norte-mineira e sul da Bahia. Como produzia cachaça de qualidade logo foi adquirindo fama junto ao consumidor. O fato de ser conhecido por onde passava, uma vez que fora tropeiro e motorista de caminhão a partir da década de 1930, facilitava o comércio de seu produto com a entrega "in loco". Este fato não acontecia com outros produtores de Salinas.

Anísio Santiago teve dois fatores decisivos na divulgação do seu produto: a marca Havana (pioneira na região de Salinas) e o caminhão que transportava a bebida diretamente ao consumidor. Com isso saiu na frente dos produtores que comercializam o seu produto a granel. Na década de 1960, vários produtores de Salinas começaram a identificar o seu produto por meio de marcas, de olho no sucesso da cachaça de Anísio Santiago. Viam nele uma referência no processo de produção de cachaça de qualidade, uma vez que a marca Havana tinha grande aceitação na região e a sua fama estava ultrapassando fronteiras. Em função disso logo surgiram várias marcas como a Piragibana, do produtor Ney Corrêa; a Indaiazinha, do produtor Waldete Romualdo; a Seleta, do produtor Miguelzinho de Almeida; a Teixeirinha, do produtor Felismino Teixeira; a Asa Branca, do produtor Juventino Queiroz; a Sabiá, do produtor Juca Marcolino; a Estrela do Norte, do produtor Purdêncio Francisco dos Santos; e a Pulusinha, do produtor Narciso Dias Corrêia., dentre ouras.

Rótulo antigo da cachaça Havana.
Outro fator determinante que favoreceu o surgimento de novas marcas em Salinas foi a decadência da cadeia produtiva de cachaça na região de Januária na década de 1960, em razão de ação gananciosa dos produtores que não souberam manter a qualidade e tradição da cachaça ali produzida. Até então as marcas de Januária gozavam de alto conceito junto ao consumidor na região norte-mineira e em todo o Brasil.

Com isso, Salinas foi aos poucos preenchendo lacuna no mercado de cachaça deixado pelos produtores de Januária. Na década de 1970, Salinas foi se impondo regionalmente como grande produtora de cachaça. O clima, solo e a variedade de cana Java, que se adaptou muito bem ao clima da região, foram fatores decisivos em todo o processo.

Na década de 1990, a cachaça de Salinas passou por novo e vigoroso processo de expansão da produção, culminando no aumento significativo de marcas em função da implantação do Pró-Cachaça, pelo governo mineiro, em 1992, visando estimular o aprimoramento da cachaça artesanal mineira. E deu certo. O Pró-Cachaça, em pouco tempo, revolucionou toda a estrutura da cadeia produtiva da cachaça artesanal produzida em todo o território mineiro, e em Salinas não foi diferente.

Atualmente existem mais de 50 marcas de cachaça produzidas no município. A produção anual já ultrapassa quatro milhões de litros por safra. Tornou-se na importante região produtora de cachaça artesanal de Minas Gerais e do Brasil. Em 2006, foi responsável por 45,87% de toda a arrecadação de ICMS, imposto de circulação de mercadorias e serviços de competência estadual, em todo o território mineiro. O processo de diversificação da economia brasileira ao longo nas últimas décadas vem forjando e incrementando atividades econômicas de produtos típicos da cultura do Brasil no mercado com forte impacto nas economias locais. Salinas encontrou no agronegócio da cachaça uma atividade econômica que vem mudando o perfil de toda a sua economia, contribuindo para o seu desenvolvimento sócio-econômico.

Reconhecendo a cachaça como importante atividade econômica e cultural do município, o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, assinou Decreto Municipal nº. 3.728/2006, reconhecendo a marca Havana como ícone da cachaça salinense com o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas em face de sua reconhecida história, qualidade e notoriedade no mercado brasileiro e no exterior. Por meio do decreto, fato inédito no Brasil, o poder executivo municipal reconheceu o feito espetacular do produtor Anísio Santiago.


Anísio Santiago foi empresário local que conquistou o mundo não por altas cifras em faturamento e sim pela excelência de qualidade de um produto que foi e continua sendo concebido por método de produção ainda não decifrado pelos produtores de Salinas e de outras regiões de Minas Gerais e do Brasil. O segredo é guardado pelos filhos que vem mantendo o processo de produção pelo mesmo método de origem. Anísio Santiago ultrapassou a barreira de empresário rural norte-mineiro que deu certo. Mais que isso, se tornou no símbolo de bebida que faz parte da história brasileira desde o século XVI, na década de 1530, quando o português Martin Afonso de Souza construiu engenhos na Capitania de São Vicente para a produção de açúcar e cachaça.

A Fazenda Havana, onde é produzida a bebida, se tornou em espécie de reduto sagrado do universo da cachaça brasileira ao longo das últimas décadas. O jornalista paulista Sidnei Maschio diz que “Em vários lugares ao redor do mundo, as visitas exigem mesmo um ritual específico, coerente com a sacralidade que eles encerram. A Fazenda Havana está nessa lista. A propriedade poderia ser comparada a um templo, pelo papel na recuperação e na divulgação das melhores qualidades da bebida genuinamente brasileira. O universo da cachaça tem duas histórias distintas, uma antes e outra depois da Havana”.

Anísio Santiago em vida foi uma lenda. Transformou-se no maior ícone da história da cachaça brasileira. É impossível falar ou escrever sobre cachaça sem tecer comentário ao seu nome e ao seu feito. Recentemente tem sido lançado vários livros sobre a cachaça brasileira por várias autores. Todos tecem comentários ao seu feito (ver referência bibliográfica abaixo). 

Osvaldo Santiago,
encimado pelo retrato de 

casamento dos pais na fazenda 
Havana, um dos sucessores na produção da 
cachaça Havana & Anísio Santiago.
O escritor e publicitário Renato Figueiredo, em seu livro "Estava no seu nariz, mas você não viu: descubra por que a cachaça brasileira pode ser muito mais suave e saborosa do que você imagina" (São José dos Campos, edição do Autor, 2011, págs. 87-88), faz a seguinte observação sobre Anísio Santiago:

"Até hoje o mito da Havana sobrevive, e é sonho de muita gente que respeita e admira a bebida. Não é difícil perceber que essa humildade de Anísio Santiago ter sido também uma das grandes responsáveis pelo destaque excepcional da marca. Surpreendia o fato de aguardar 10 anos para vender sua bebida, surpreendia o fato de que, mesmo com a fama, ele se conservava reservado e da mesma forma como sempre foi (...). Fato interessante é que a vitoriosa sem mantém até hoje com suas mesmas raízes de humildade, sendo produzida na mesma fazenda de outrora - desta vez pelos filhos e netos do produtor que fez sua fama. Enquanto isso, espalhados pelo mundo, histórias e produtos com inícios parecidos tiveram finais um pouco diferentes. Café, doce de leite, chocolates e até outras bebidas e produtos artesanais hoje viraram mercadoria sofisticada, objetos de estratégia de marketing e revista de luxo, e são vendidos nas melhores boutiques e nos melhores locais. E a Havana-Anísio Santiago também está lá com eles, só que com a mesma embalagem, sem campanhas de marketing nem pirotecnias publicitárias - mas com o mesmo valor de sempre."

Mesmo após a sua morte em 2002, ainda desperta curiosidade em muitas pessoas. Muito ainda se fala e escreve a seu respeito e do legado que deixou. Deixou grande lição de vida e demonstrou que é possível crescer e construir uma vida respeitável e obter a admiração de todos. Sempre permaneceu fiel aos seus ideais e princípios que acreditou serem verdadeiros.

Para o cachacier Maurício Maia, o centenário de Anísio Santiago é digno de registro e memória. Segundo o cachacier "São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e a qualidade que sempre marcaram as cachaças que ele produzia sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção em detrimento da qualidade."

Na opinião do advogado da família de Anísio Santiago, Dr. Cláudio Luiz Gonçalves de Souza, responsável pela espetacular vitória na justiça federal pelo retorno da marca Havana, a data comemorativa de centenário de nascimento de Anísio Santiago "É digna de registro e, por sua vez, deve ser eternizado como o exemplo de um homem, cidadão brasileiro que, com seu trabalho. conseguiu demarcar uma região do país, por vezes esquecida, representada pela cidade de Salinas e localidades em seu entorno, como o berço da produção da melhor cachaça do país". Acrescenta ainda que o legado de Anísio Santiago "Permanece e, por certo, permanecerá; uma vez que seu trabalho pioneiro, realizado ao longo de várias décadas de forma incansável e com muita tenacidade fez toda uma região se tornar referência na produção de cachaça de qualidade a partir da cachaça Havana".

A seguir, vários depoimentos de degustadores e especialistas sobre o feito de Anísio Santiago. 

Depoimentos

Historicamente, Anísio Santiago trouxe para Salinas fama e prestígio através da Havana. Soube valorizar a qualidade e agregar valor ao produto em mais de sete décadas de produção.” 
(JOSÉ ANTÔNIO PRATES, prefeito de Salinas).

Os filhos e netos de Anísio Santiago estão conscientes da responsabilidade de manter a tradição e o padrão de qualidade adquirido em décadas de produção da cachaça Havana-Anísio Santiago. A família tem um compromisso moral que não abrimos mão.” 

(OSVALDO MENDES SANTIAGO, filho de Anísio Santiago e atual sucessor na produção da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor.” 

(ISRAEL PINHEIRO, político, político e filho do ex-governador Israel Pinheiro).

Anísio Santiago escreveu uma grande história e se tornou uma lenda. Mas há muito mais por trás da saga da produção da cachaça Havana – Anísio Santiago. Para mim uma garrafa de Havana guarda muito mais que uma bebida rara, ela preserva história, memórias e lembranças. Na Fazenda Havana não é produzida apenas uma cachaça. É destilado um sonho, a realização e a perpetuação de um sonho muito antigo”. 

(JANE SALDANHA, jornalista).

Anísio Santiago é exemplo para produtores e comerciantes de cachaça do Brasil, pois representa valorização da qualidade da cachaça brasileira.” 
(OSWALDO BERNADINO JÚNIOR, empresário no ramo de bebidas, dono da Distribuidora Savana).

Anísio Santiago é uma lenda para nós. Do reconhecimento efetivo da Havana soube manter espírito investigativo e inovador na produção de cachaça, não se deixando deslumbrar pelo lucro que poderia ter.” 
(JOSÉ BONIFÁCIO DOS SANTOS, presidente da Confraria Clube da Cachaça de Brasília – DF).

Se cachaça fosse carro, a Havana seria uma Ferrari.” 
(MILTON LIMA, fundador do Cachaças.com).

"Há muitos anos que vários produtores se pautam pela Havana-Anísio Santiago para atingir um mais alto patamar de qualidade. Mas o mito da cachaça havana-Anísio Santiago é que confere à marca o status de ícone da cachaça brasileira."
(MAURÍCIO MAIA, cachacier e chef de cozinha. É autor do blog O Cachacier).

Pesquisar sobre a cachaça de Salinas, nos últimos cinqüenta anos, forçosamente incluirá a pesquisa da marca Havana. Discorrer sobre essa marca, cuja trajetória é assentada na simplicidade e no capricho quase obsessivo de seu proprietário em manter, ao longo de várias décadas, um elevado padrão de qualidade, invariavelmente requer que se teçam comentários sobre quem a idealizou, cuidou e a construiu.” 
(ELIAS RODRIGUES DE OLIVEIRA, mestre em Administração Rural).

Anísio Santiago ia contra as teorias de marketing. Imagine um político ou um vendedor de bugigangas rejeitar aparecer na Rede Globo? Ele não ia atrás de ninguém, as pessoas o procuravam como em romaria, tinha uma personalidade imantada. Inverteu a lógica vulgar e fez um marketing sólido, mais sólido que a nossa moeda. Apesar de ser proibido cunhar dinheiro, que é monopólio do estado, cunhou a Havana, pagando com ela seus empregados e suas compras. Anísio Santiago conseguiu ser uma lenda em vida, mesmo em cidade do interior onde os comentários são quase sempre negativos. ‘Aquele é o Anísio da Havana’, diziam orgulhosos os da terra aos amigos de fora, quando Anísio passava. A marca que criou cresceu e virou fetiche, invertendo a lógica criador criatura, pois a Havana é que era dele, sua subordinada”. 
(APOLO HERINGER LISBOA, escritor, médico e professor de medicina da UFMG).

"A Cachaça Havana-Anísio Santiago é uma referência nacional e internacional; é um modo de fazer; um estado de arte. Daí a razão da mesma ser considerada oficialmente “Patrimônio Cultural Imaterial” do município de Salinas, representando dessa forma todo o país. A Cachaça “HAVANA-Anísio Santiago” é um ícone; é um símbolo; é uma referência e ideal de perfeição que toda cachaça artesanal de qualidade aspira alcançar um dia."
(CLÁUDIO LUIZ GONÇALVES DE SOUZA, Mestre em Direito Empresarial, Professor Universitário, Escritor e Advogado da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

__________

Refefência bibliográfica:

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006, 292 páginas.