História de Salinas

História de Salinas

27 de julho de 2015

EFEMÉRIDES SALINENSES


Por Roberto Carlos Morais Santiago

02/01/1842 - Falece José da Costa Neves, com testamento solene, na fazenda São Pedro, localizada no distrito de Santo Antônio de Salinas. Natural de Porto, Portugal, era filho de Manuel da Costa e Francisca Caetana da Silva.

09/01/1844 - O padre Bernardino Ferreira da Costa, vereador de Rio Pardo, representante do distrito de Santo Antônio de Salinas, pede exoneração do cargo alegando morar no distrito de Salinas, distante 16 léguas de Rio Pardo, ter mais de sessenta anos e padecer de moléstia de supressão de urina. A Câmara de Rio Pardo concedeu a exoneração aceitando os motivos alegados.

09/01/1845 - José Joaquim de Almeida e o 3º Alferes José Pereira de Oliveira e Melo tomam posse no cargo de Juiz de Paz (1845-1849) no distrito de Santo Antônio de Salinas.

09/01/1849 - Claudino Barbosa de Oliveira, Januário da Fonseca Magalhães, José Machado Junior e Ponciano José Esteves tomam posse no cargo de Juiz de Paz (1849-1853) no distrito de Santo Antônio de Salinas.

30/03/1853 - Falece em Minas Novas aos setenta anos o Sr. Hilário, natural de Santo Antônio de Salinas e escravo de Manuel Lopes Penedo. No dia 17 de julho de 1851 foi condenado às galés perpétuas pelo assassinato de Antônio Cardoso de Araújo com uma pancada de machado, crime cometido no dia 12 de março do mesmo ano.

12/02/1858 - Toma posse no cargo de Subdelegado de Polícia do distrito de Santo Antônio de Salinas, Claudino Barbosa de Oliveira.

09/01/1867 - Falece no sítio da Matrona, distrito de Santo Antônio de Salinas, Domingos Moreira de Souza com sessenta e nove anos, casado com Juliana Maria da Conceição. Era natural de Porto, Portugal e filho do Guarda-Mor Lucas Mendes Lourenço e Josefa Maria da Conceição.

19/01/1883 - Desmembrado do município de Rio Pardo pela Lei Provincial nº 2.275, de 18 de dezembro de 1880,  instala-se a 1ª Câmara Municipal de Santo Antônio de Salinas. Eis a ata da instalação: "Termo de juramento e posse aos sete vereadores da Câmara Municipal da Vila de Santo Antônio de Salinas. Aos dezenove dias do mês de janeiro de mil e oitocentos e oitenta e três do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, às quatro horas da tarde sob a presidência do vereador da Câmara Municipal de Rio Pardo, Conrado Gomes Caldeira, compareceram os Srs. Cap. Carlos Dias Torres, Tte. Donério Ferreira de Araújo, Luiz Ferreira Moneiro, Antônio dos Anjos Silva Sobrinho, Avelino Ferreira de Almeida, Honofre Valente Franco e Mudesto José da Silva, vereadores eleitos para o futuro quadriênio de 1883-1886, com fez certo pelos seus respectivos diplomas, e prestarão sobre o Livro dos Santos Evangelhos, o juramento com as formalidades legais, prometento cumprir com bôa e sã consciência os deveres de seu cargo de vereadores, do qual tomarão posse. E de como assim dicerão, para constar lavrei este termo. Eu, José Cândido Moreira e Souza, secretário interino desta Câmara que este fiz e subscrevi.

04/01/1886 - Nasce no município de Santo Antônio de Salinas, Antônio Alexandrino Borges (Tunico), filho de Clementino Alexandrino Borges e Braselina Perpétua Borges

09/02/1926 - Falece em Conceição do Mato Dentro, Minas, no dia 9 de fevereiro de 1926, o Juiz de Direito aposentado Bazílio da Silva Santiago. Filho de Caetano José da Silva Santiago e Maria José da Silva Maia Santiago, nasceu no dia 2 de março de 1857, na Freguesia do Sacramento da Boa Vista do Recife, Pernambuco. No dia 14 de junho de 1879 casou-se com Elvira de Morais e Silva, em Recife. Formou em Direito em Recife colando grau no dia 11 de novembro de 1882. Aos 31 de janeiro de 1883, entrou em exercício de Promotro de Justiça em Cabrobó, Pernambuco. Aos 29 de novembro de 1886, tornou-se Juiz de Direito da Vila do Calhau (atual município de Araçuaí, Minas). Em Rio Pardo toma posse de Juiz de Direito aos 12 de junho de 1892. Pede sua transferência para a Comarca de Santo Antônio de Salinas, concedida em agosto de 1894. Fica viúvo em 1896. Em junho de 1900 é removido para a Comarca de Januária, mas não aceita a remoção. Desejando ficar mais perto da capital mineira, permutou com o Juiz de Direito de Conceição de Mato Dentro, Dário Augusto Ferreira da Silva. O povo de Salinas tomando conhecimento de sua remoção reúne-se em frente de sua residência, numa manifestação de apreço, pede para que não saia de Salinas. Comovido com tal manifestação de apoio e amizade, diz que Salinas lhe era muito querida, pois ali se achava o túmulo de sua esposa e o berço da segunda (casara-se novamente com Melinda Ferreira Santiago). Deu-lhes permissão de em seu nome, telegrafar desistindo da permuta. Quando foi realizada a transmissão, após longa viagem a Montes Claros, estação mais próxima, o decreto de remoção já havia sido assinado pelo governador de Minas Gerais. Com isso, saiu de Salinas a cavalo com a família no dia 27 de março de 1908, chegando a Conceição do Mato Dentro no dia 21 de abril, vinte e quatro dias depois. Ali exerceu as suas funções de Juiz de Direito até 24 de junho de 1924, quando se aposentou por invalidez.

12/01/1932 - Falece em Rio Pardo o salinense Alvim Alexandrino Borges, filho de Dâmaso Alexandrino Borges e Clemência Pereira Borges. Era solteiro e alfaiate. Foi Escrivão de Paz interino em Rio Pardo.

14/02/1957 - Falece em Salinas aos sessenta e sete anos o Dr. Manuel Agostinho de Oliveira Morais, filho de Torquato José de Oliveira Morais e Ana Florinda de Oliveira Morais. Natural de Mariana (MG), estudou no Seminário de Mariana e formou-se na Faculdade de Direito de Belo Horizonte em 1924. Casou-se em Mariana com Cecília Carvalho Morais e, ficando viúvo, transfere-se para o distrito de Fortaleza de Salinas (atual município de Pedra Azul), depois para o município de Salinas, onde se casou com Clemência Miranda de Morais no dia 12 de fevereiro de 1929. Advogou na Comarca de Salinas de 1931 a 1940. Deixou viúva e os filhos Antônio Filomeno de Oliveira Morais, Ivo Miranda de Morais, Silvia de Oliveira Morais, Célia Miranda de Morais, Murilo Morais, Maria de Lourdes Morais, Aliete Ione Morais, José Miranda de Morais, Lívia Miranda de Morais e Elmo Miranda de Morais.

28 de março de 2015

ANTIGO GRUPO ESCOLAR DR. JOÃO PORFÍRIO


Fachada do antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio.


Por Roberto Carlos Morais Santiago

Foto rara de 1915, início do século XX, de fachada do antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio, primeira escola de Salinas. O prédio não existe mais. A centenária escola foi construída entre os anos de 1908 e 1910, onde atualmente encontra-se instalada agência do Banco do Nordeste na rua Barão do Rio Branco. A escola teve custo de cerca de cinco contos de réis do governo mineiro, somados à contribuição do povo salinense que muito queria uma unidade de ensino na cidade. A escola foi instalada no dia 23 de setembro de 1911.
Ao fundo subida da rua Barão do Rio Branco e o antigo Grupo Escolar Dr. João Porfírio.
Foto de 1922 - Inauguração da ponte de madeira.

28 de fevereiro de 2015

CÂMARA MUNICIPAL DE SALINAS FAZ 132 ANOS

Atual sede da Câmara Municipal de Salinas.

Por Roberto Carlos Morais Santiago

Data importante na história de Salinas digna de registro e comemoração  passou despercebida, mais uma vez. É que a Câmara Municipal de Salinas fez 132 anos no dia 19 de janeiro de 2015, tendo em vista a instalação da sua 1ª Câmara Municipal ocorrida no dia 19 de janeiro de 1883, final do século XIX, ainda no II Império de D. Pedro II. 

Assim, efetivou-se de fato e direito a emancipação política e administrativa do município de Santo Antônio de Salinas, criado pela pela Lei Provincial nº. 2.275, de 18 de dezembro de 1880. Os primeiros vereadores eleitos de Santo Antônio de Salinas tomaram posse na Câmara Municipal de Rio Pardo, onde foi instalada. 


Na posse, o vereador Antônio dos Anjos Silva Sobrinho foi eleito presidente da 1ª Câmara de Salinas e Agente Executivo (cargo equivalente a prefeito atualmente) tornando-se no primeiro mandatário político do novo município.
 
Eis o teor da ata de instalação da 1ª. Câmara Municipal do Município de Santo Antônio de Salinas, para o quadriênio 1883-1886:



ATA DE INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE
SANTO ANTÔNIO DE SALINAS


“Termo de juramento e posse aos sete vereadores da Câmara Municipal da
Vila de Santo Antônio de Salinas

Aos dezenove dias do mês de janeiro de 1883, às quatro horas da tarde, sob a presidência do Vereador da Câmara de Rio Pardo de Minas, Conrado Gomes Caldeira, compareceram os senhores Cap. Carlos Dias Torres, Tte. Donério Ferreira de Araújo, Luiz Ferreira Monteiro, Antônio dos Anjos Silva Sobrinho, Avelino Ferreira de Almeida, Honofre Valente Franco e Mudesto José da Silva, vereadores eleitos para o futuro quadriênio de 1883 a 1886, como fez certo pelo seus respectivos diplomas, e prestarão sobre o Livro dos Santos Evangelhos, o juramento com as formalidades legais, prometendo cumprir com bôa e sã consciência os deveres do cargo de vereadores, do qual tomarão posse. E de como assim dicerão, para constar lavrei este ermo. Eu, José Cândido Moreira e Souza, secretário interino desta Câmara que este fiz e subscrevi.”

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Referência bibliográfica:

ÂNGELIS, Newton. Efemérides Riopardenses. Salinas: 1998, pág. 49.

25 de fevereiro de 2015

CEMITÉRIO DE SALINAS FAZ 106 ANOS

O cemitério foi construído em 1909.
O atual cemitério de Salinas está localizado no centro da cidade em terreno doado por Dona Ana Maria de Araújo, no dia 15 de fevereiro de 1858, início da segunda metade do século XIX. Nesta época Salinas era distrito da Vila de Rio Pardo. Entretanto, o cemitério somente veio a ser construído em 1909 a mando dos políticos mandatários Virgìlio Avelino Grão Mogol e João Porfírio Machado. 

Até então os mortos eram enterrados ao lado da igreja antiga edificada em terreno onde atualamente está localizada a atual Escola Estadual Dr. João Pórfírio em frente à antiga praça do mercado velho. 

O cemitério de Salinas não comporta mais novos sepultamentos. Ainda assim, precisa ser preservado pois grande parte de sua história está ali enterrada. Preservar a memória dos mortos é preservar a própria história.

10 de fevereiro de 2015

O BELÍSSIMO LIVRO "QUASE VERDADE"

Capa do livro.
Por Roberto Carlos Morais Santiago

O livro "Quase Verdade" (Belo Horizonte: Editora Alfstudio, 2009) é uma belíssima obra literária do escritor salinense Marcos Rodrigues Borges que merece leitura de todo salinense e não salinense. Aborda causos de sua infância e juventude e também da sociedade salinense com um humor extremamente inteligente.

Marcos Borges é filho de Geraldo Borges e Maria Nelly Borges, casado com Valéria Santiago Queiróz Borges e pai dos filhos Artur e Pedro. Atualmente mora em Belo Horizonte, onde fixou raízes. 

O blog História de Salinas parabeniza o autor pela obra literária que engrandece a História do município, como também recomenda o livro pelos incríveis relatos. Quem tiver interesse, entrar em contato com o autor no e-mail mrb.borges@uol.com.br. Imperdível!

JOSÉ AMERICANO MENDES

José Americano Mendes.
Por Roberto Carlos Morais Santiago

A noite de quarta-feira, de 30 de dezembro de 1970, não foi tranquila para os moradores da pacata Salinas, norte de Minas Gerais, que vivia sob a batuta do regime militar. Dias antes participara de eleições para escolha de seus representantes. A cidade não tinha energia elétrica e sua iluminação noturna era muito precária. Depois de certa hora, a cidade imergia na escuridão total. 

Foi nesse clima que o então delegado de polícia do município, José Americano Mendes, fora assassinado com vários tiros na ponte que liga o centro ao bairro São Geraldo. Os autores do terrível crime foram Oséas de Almeida e o filho Evaristo de Almeida. O crime assustou a sociedade salinense e repercutiu no país. Tanto, que foi objeto de reportagem da revista VEJA na época (edição nº. 122, página 14, de 6/1/1971). Eis o teor da reportagem:

“NORTE BRAVIO - Os tiros que se ouviram na noite de quarta-feira da semana passada em Salinas não foram de banditismo comum. Foram tiros de vingança política, disparados por Oséas de Almeida, 56 anos e seu filho Evaristo de Almeida, 22 anos, contra o delegado de polícia local, José Americano Mendes. Das oito balas de revólver calibre 32, cinco atingiram certeiramente o coração do delegado e trouxeram para a população de Salinas lembranças das antigas e violentas guerras de jagunços que decidiram a política local.

A razão direta do assassinato parece ter sido a aposentadoria e demissão dos matadores, pai e filho, dos postos que ocupavam no hospital público local. Eles perderam seus empregos três dias depois das eleições e atribuíram o fato às ligações que mantinham com o deputado eleito Sylo Costa, candidato adversário do deputado Geraldo Santana, poderoso chefe político do município e amigo do delegado assassinado. Em virtude da sua atuação política, José Americano Mendes havia sido afastado da delegacia durante o período eleitoral, mas retornou logo em seguida e, segundo Oséas, foi o causador da sua aposentadoria e também o autor de diversas ameaças contra ele e o filho.

Mas essa não é a única explicação que apareceu para o crime: de acordo com vários depoimentos, Oséas era metido a valentão e teria sido ameaçado pelo delegado por causa da forma como comemorou o seu Natal, trocando placas de casas comerciais e defecando em automóveis.”

2 de fevereiro de 2015

O LENDÁRIO ANÍSIO SANTIAGO

Anísio Santiago.

O blog História de Salinas não poderia deixar passar em branco a data de nascimento de Anísio Santiago que se comemora no dia 2 de fevereiro, tido como o mais emblemático produtor da história da cachaça brasileira. A história de vida do lendário produtor da cachaça Havana-Anísio Santiago - reconhecida ícone da mais legítima bebida brasileira: a cachaça - é interessante sob todos os aspectos. Em vida foi uma lenda tal o respeito e admiração pela cachaça que produzia. Mesmo após sua morte em 2002, o seu legado continua. Pode-se afirmar que a história da cachaça brasileira se refere a antes e depois de Anísio Santiago.



Por Roberto Carlos Morais Santiago


Se estivesse vivo, Anísio Santiago faria hoje 103 anos de vida. Entretanto, faleceu no dia 22 de dezembro de 2002, próximo de completar 92 anos. A data é digna de registro e comemoração, pois se trata de um dos personagens mais importantes da história de Salinas, município onde nasceu, viveu e morreu.

Ressalta-se que a trajetória de vida de Anísio Santiago transcendeu os limites de sua amada terra. Com seu jeito todo peculiar, soube forjar uma marca de cachaça: a Havana-Anísio Santiago, cujo método de produção e envelhecimento, ainda mantido pelos seus sucessores, é referência em todo o país. Pode-se afirmar, sem margem de dúvida, que Anísio Santiago é o maior personagem da história da cachaça brasileira. É praticamente impossível discutir o assunto cachaça sem tecer o seu nome e o seu legado.

A família Santiago surgiu no município norte-mineiro de Salinas no ano de 1898, final do século XIX, através do pioneiro José Santiago (1873-1944). Filho de Justino Santiago e Anna Maria de Jesus, nasceu na cidade mineira de Diamantina, localizada no Alto Jequitinhonha.

Ainda jovem, em 1894, José Santiago foi estudar medicina em Salvador. Por razões desconhecidas desistiu do curso no segundo ano. Segundo Arlindo Santiago (1909-2011), filho de José Santiago, o motivo da desistência foi a Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior da Bahia, que mobilizou milhares de soldados do governo federal para combater o temido Antônio Conselheiro. Em dois anos de conflito milhares de pessoas morreram.

Anísio Santiago.
Retornando para Minas Gerais, José Santiago foi morar e trabalhar como professor na cidade de Medina, no Vale do Jequitinhonha. Ali conheceu a baiana Virginia Celestina (1882-1965), natural de Urandi, com quem se casou em 1896.

Em 1898, mudou-se com a esposa para Salinas, também para trabalhar como professor, embora não se tenha registro em qual escolar. A convite de um amigo foi lecionar no povoado de Lagoinha, zona rural do município, isso no ano de 1900.

O povoado de Lagoinha, naquela época, tinha importância estratégica tendo em vista que era parada obrigatória de pessoas e transportadores de mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros.

Em 1903 adquiriu a fazenda Bonfim, próxima ao povoado, onde fixou moradia, tornando-se produtor rural, além de professor. José Santiago tornou-se pessoa muito assediada na região pelo fato de ter conhecimento de medicina, além de ser professor. Em pouco tempo tornou-se uma espécie de líder do povoado de Lagoinha e região.

Da união de José Santiago e Virginia Celestina surgiu prole numerosa, fato muito comum na estrutura familiar do início do século XX. Foram doze filhos: Antônio Santiago (1897-1950), Maria Santiago (1899-1953), Leôncio Santiago (1901-1945), Silvio Santiago (1912-1986), Santinha Santiago (1908-2001), Arlindo Santiago (1909-2011), Anísio Santiago (1912-2002), José Elzito Santiago (1915-1945), Anita Santiago (1913), Osvaldina Santiago (1917) e Osvaldir Santiago (1919-2007). Dos doze filhos, somente o primogênito Antônio Santiago nasceu em Medina, sendo que os demais em Salinas.

José Santiago veio a falecer em 1944, aos sessenta e sete anos e a sua esposa, Virginia Celestina, em 1965, aos oitenta e três anos. Foram precursores da família Santiago em Salinas, cujo tronco da árvore genealógica tem origem na região de Diamantina.

Da prole numerosa de José Santiago o destino reservou ao sétimo filho, Anísio Santiago, trajetória de vida que o tornaria parte da história de Salinas. Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1912, na fazenda Bonfim, zona rural de Salinas. Ali cresceu e viveu sua infância e adolescência ao lado dos pais e irmãos.

Aos doze anos de idade, escondido do pai, experimentou beber cachaça pela primeira vez. Não gostou. Desde então jamais bebeu cachaça em toda a sua vida. Entretanto, quis o destino que a cachaça tivesse importância fundamental em sua vida.

O jovem Anísio Santiago aprendeu vários ofícios. Foi carpinteiro, tropeiro, comerciante, motorista e fazendeiro. Como tropeiro transportou mercadorias em mulas entre Salinas e Montes Claros na década de 1930.

De tropeiro tornou-se motorista de um Ford F-8, que adquiriu no final da década de 1930. Foi um dos primeiros motoristas da região de Salinas e foi testemunha ocular da modernidade que aos poucos chegava através das estradas empoeiradas e esburacadas.

Em 1937, aos 25 anos, se casou com Adélia Mendes (1916-2007), então com 21 anos de idade. Deixou o povoado de Lagoinha e fixou residência na cidade de Salinas, onde continuou a exercer as atividades de comerciante e motorista.

Alguns anos depois, em 1942, comprou a fazenda Havana que pertencia a viúva de João Soares, Maria Virgínia Soares, localizada no sopé da Serra dos Bois, distante cerca de doze quilômetros da sede do município. Para lá mudou com a esposa no ano seguinte. Iniciava-se nova fase na vida do então jovem Anísio Santiago.

Fazenda Havana.
Em 1943, estabelecido definitivamente na fazenda Havana, iniciou produção de cachaça em pequeno pequeno alambique que já existia na fazenda dos antigos proprietários. Em pouco tempo a produção de cachaça se tornou na principal atividade econômica. A produção era vendida a granel. Somente em  1946 constituiu empresa e passa a identificar seu produto através da marca Havana, reconhecida como pioneira na região de Salinas. Até então os produtores do município e região produziam e vendiam cachaça a granel aos comerciantes e tropeiros da região desde o final do século XIX.

Em 1947, em parceria com o irmão Sílvio Santiago e o amigo Aníbal Gonçalves das Neves, comprou caminhão Chevrolet Lordmaster, importado dos Estados Unidos. Ele próprio foi ao Rio de Janeiro buscar o veículo. A viagem durou seis dias. Logo comprou as partes do irmão e do amigo Aníbal. Com o caminhão comercializava sua cachaça em Salinas, região norte-mineira e sul da Bahia. Como produzia cachaça de qualidade logo foi adquirindo fama junto ao consumidor. O fato de ser conhecido por onde passava, uma vez que fora tropeiro e motorista de caminhão a partir da década de 1930, facilitava o comércio de seu produto com a entrega "in loco". Este fato não acontecia com outros produtores de Salinas.

Anísio Santiago teve dois fatores decisivos na divulgação do seu produto: a marca Havana (pioneira na região de Salinas) e o caminhão que transportava a bebida diretamente ao consumidor. Com isso saiu na frente dos produtores que comercializam o seu produto a granel. Na década de 1960, vários produtores de Salinas começaram a identificar o seu produto por meio de marcas, de olho no sucesso da cachaça de Anísio Santiago. Viam nele uma referência no processo de produção de cachaça de qualidade, uma vez que a marca Havana tinha grande aceitação na região e a sua fama estava ultrapassando fronteiras. Em função disso logo surgiram várias marcas como a Piragibana, do produtor Ney Corrêa; a Indaiazinha, do produtor Waldete Romualdo; a Seleta, do produtor Miguelzinho de Almeida; a Teixeirinha, do produtor Felismino Teixeira; a Asa Branca, do produtor Juventino Queiroz; a Sabiá, do produtor Juca Marcolino; a Estrela do Norte, do produtor Purdêncio Francisco dos Santos; e a Pulusinha, do produtor Narciso Dias Corrêia., dentre ouras.

Rótulo antigo da cachaça Havana.
Outro fator determinante que favoreceu o surgimento de novas marcas em Salinas foi a decadência da cadeia produtiva de cachaça na região de Januária na década de 1960, em razão de ação gananciosa dos produtores que não souberam manter a qualidade e tradição da cachaça ali produzida. Até então as marcas de Januária gozavam de alto conceito junto ao consumidor na região norte-mineira e em todo o Brasil.

Com isso, Salinas foi aos poucos preenchendo lacuna no mercado de cachaça deixado pelos produtores de Januária. Na década de 1970, Salinas foi se impondo regionalmente como grande produtora de cachaça. O clima, solo e a variedade de cana Java, que se adaptou muito bem ao clima da região, foram fatores decisivos em todo o processo.

Na década de 1990, a cachaça de Salinas passou por novo e vigoroso processo de expansão da produção, culminando no aumento significativo de marcas em função da implantação do Pró-Cachaça, pelo governo mineiro, em 1992, visando estimular o aprimoramento da cachaça artesanal mineira. E deu certo. O Pró-Cachaça, em pouco tempo, revolucionou toda a estrutura da cadeia produtiva da cachaça artesanal produzida em todo o território mineiro, e em Salinas não foi diferente.

Atualmente existem mais de 50 marcas de cachaça produzidas no município. A produção anual já ultrapassa quatro milhões de litros por safra. Tornou-se na importante região produtora de cachaça artesanal de Minas Gerais e do Brasil. Em 2006, foi responsável por 45,87% de toda a arrecadação de ICMS, imposto de circulação de mercadorias e serviços de competência estadual, em todo o território mineiro. O processo de diversificação da economia brasileira ao longo nas últimas décadas vem forjando e incrementando atividades econômicas de produtos típicos da cultura do Brasil no mercado com forte impacto nas economias locais. Salinas encontrou no agronegócio da cachaça uma atividade econômica que vem mudando o perfil de toda a sua economia, contribuindo para o seu desenvolvimento sócio-econômico.

Reconhecendo a cachaça como importante atividade econômica e cultural do município, o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, assinou Decreto Municipal nº. 3.728/2006, reconhecendo a marca Havana como ícone da cachaça salinense com o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas em face de sua reconhecida história, qualidade e notoriedade no mercado brasileiro e no exterior. Por meio do decreto, fato inédito no Brasil, o poder executivo municipal reconheceu o feito espetacular do produtor Anísio Santiago.

Anísio Santiago foi empresário local que conquistou o mundo não por altas cifras em faturamento e sim pela excelência de qualidade de um produto que foi e continua sendo concebido por método de produção ainda não decifrado pelos produtores de Salinas e de outras regiões de Minas Gerais e do Brasil. O segredo é guardado pelos filhos que vem mantendo o processo de produção pelo mesmo método de origem. Anísio Santiago ultrapassou a barreira de empresário rural norte-mineiro que deu certo. Mais que isso, se tornou no símbolo de bebida que faz parte da história brasileira desde o século XVI, na década de 1530, quando o português Martin Afonso de Souza construiu engenhos na Capitania de São Vicente para a produção de açúcar e cachaça.

A Fazenda Havana, onde é produzida a bebida, se tornou em espécie de reduto sagrado do universo da cachaça brasileira ao longo das últimas décadas. O jornalista paulista Sidnei Maschio diz que “Em vários lugares ao redor do mundo, as visitas exigem mesmo um ritual específico, coerente com a sacralidade que eles encerram. A Fazenda Havana está nessa lista. A propriedade poderia ser comparada a um templo, pelo papel na recuperação e na divulgação das melhores qualidades da bebida genuinamente brasileira. O universo da cachaça tem duas histórias distintas, uma antes e outra depois da Havana”.

Anísio Santiago em vida foi uma lenda. Transformou-se no maior ícone da história da cachaça brasileira. É impossível falar ou escrever sobre cachaça sem tecer comentário ao seu nome e ao seu feito. Recentemente tem sido lançado vários livros sobre a cachaça brasileira por várias autores. Todos tecem comentários ao seu feito (ver referência bibliográfica abaixo). 

Osvaldo Santiago,
encimado pelo retrato de 

casamento dos pais na fazenda 
Havana, um dos sucessores na produção da 
cachaça Havana-Anísio Santiago.
O escritor e publicitário Renato Figueiredo, em seu livro "Estava no seu nariz, mas você não viu: descubra por que a cachaça brasileira pode ser muito mais suave e saborosa do que você imagina" (São José dos Campos, edição do Autor, 2011, págs. 87-88), faz a seguinte observação sobre Anísio Santiago:

"Até hoje o mito da Havana sobrevive, e é sonho de muita gente que respeita e admira a bebida. Não é difícil perceber que essa humildade de Anísio Santiago ter sido também uma das grandes responsáveis pelo destaque excepcional da marca. Surpreendia o fato de aguardar 10 anos para vender sua bebida, surpreendia o fato de que, mesmo com a fama, ele se conservava reservado e da mesma forma como sempre foi (...). Fato interessante é que a vitoriosa sem mantém até hoje com suas mesmas raízes de humildade, sendo produzida na mesma fazenda de outrora - desta vez pelos filhos e netos do produtor que fez sua fama. Enquanto isso, espalhados pelo mundo, histórias e produtos com inícios parecidos tiveram finais um pouco diferentes. Café, doce de leite, chocolates e até outras bebidas e produtos artesanais hoje viraram mercadoria sofisticada, objetos de estratégia de marketing e revista de luxo, e são vendidos nas melhores boutiques e nos melhores locais. E a Havana-Anísio Santiago também está lá com eles, só que com a mesma embalagem, sem campanhas de marketing nem pirotecnias publicitárias - mas com o mesmo valor de sempre."

Mesmo após a sua morte em 2002, ainda desperta curiosidade em muitas pessoas. Ainda muito se fala e escreve a seu respeito e do legado que deixou. Deixou grande lição de vida e demonstrou que é possível crescer e construir uma vida respeitável e obter a admiração de todos. Sempre permaneceu fiel aos seus ideais e princípios que acreditou serem verdadeiros.

Para o cachacier Maurício Maia, o centenário de Anísio Santiago é digno de registro e memória. Segundo o cachacier "São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e a qualidade que sempre marcaram as cachaças que ele produzia sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção em detrimento da qualidade."

Na opinião do advogado da família de Anísio Santiago, Dr. Cláudio Luiz Gonçalves de Souza, responsável pela espetacular vitória na justiça federal pelo retorno da marca Havana, a data comemorativa de centenário de nascimento de Anísio Santiago "É digna de registro e, por sua vez, deve ser eternizado como o exemplo de um homem, cidadão brasileiro que, com seu trabalho. conseguiu demarcar uma região do país, por vezes esquecida, representada pela cidade de Salinas e localidades em seu entorno, como o berço da produção da melhor cachaça do país". Acrescenta ainda que o legado de Anísio Santiago "Permanece e, por certo, permanecerá; uma vez que seu trabalho pioneiro, realizado ao longo de várias décadas de forma incansável e com muita tenacidade, fez com que toda uma região se tornar-se uma referência na produção e comercialização de cachaça de qualidade, a partir da cachaça Havana que por si só, já é perene".

A seguir, vários depoimentos de degustadores e especialistas sobre o feito de Anísio Santiago. 

Depoimentos

Historicamente, Anísio Santiago trouxe para Salinas fama e prestígio através da Havana. Soube valorizar a qualidade e agregar valor ao produto em mais de sete décadas de produção.” 
(JOSÉ ANTÔNIO PRATES, prefeito de Salinas).

Os filhos e netos de Anísio Santiago estão conscientes da responsabilidade de manter a tradição e o padrão de qualidade adquirido em décadas de produção da cachaça Havana-Anísio Santiago. A família tem um compromisso moral que não abrimos mão.” 
(OSVALDO MENDES SANTIAGO, filho de Anísio Santiago e atual sucessor na produção da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor.” 
(ISRAEL PINHEIRO, político, político e filho do ex-governador Israel Pinheiro).

Anísio Santiago escreveu uma grande história e se tornou uma lenda. Mas há muito mais por trás da saga da produção da cachaça Havana – Anísio Santiago. Para mim uma garrafa de Havana guarda muito mais que uma bebida rara, ela preserva história, memórias e lembranças. Na Fazenda Havana não é produzida apenas uma cachaça. É destilado um sonho, a realização e a perpetuação de um sonho muito antigo”. 
(JANE SALDANHA, jornalista).

Anísio Santiago é exemplo para produtores e comerciantes de cachaça do Brasil, pois representa valorização da qualidade da cachaça brasileira.” 
(OSWALDO BERNADINO JÚNIOR, empresário no ramo de bebidas, dono da Distribuidora Savana).

Anísio Santiago é uma lenda para nós. Do reconhecimento efetivo da Havana soube manter espírito investigativo e inovador na produção de cachaça, não se deixando deslumbrar pelo lucro que poderia ter.” 
(JOSÉ BONIFÁCIO DOS SANTOS, presidente da Confraria Clube da Cachaça de Brasília – DF).

Se cachaça fosse carro, a Havana seria uma Ferrari.” 
(MILTON LIMA, fundador do Cachaças.com).

"Há muitos anos que vários produtores se pautam pela Havana-Anísio Santiago para atingir um mais alto patamar de qualidade. Mas o mito da cachaça havana-Anísio Santiago é que confere à marca o status de ícone da cachaça brasileira."
(MAURÍCIO MAIA, cachacier e chef de cozinha. É autor do blog O Cachacier).

Pesquisar sobre a cachaça de Salinas, nos últimos cinqüenta anos, forçosamente incluirá a pesquisa da marca Havana. Discorrer sobre essa marca, cuja trajetória é assentada na simplicidade e no capricho quase obsessivo de seu proprietário em manter, ao longo de várias décadas, um elevado padrão de qualidade, invariavelmente requer que se teçam comentários sobre quem a idealizou, cuidou e a construiu.” 
(ELIAS RODRIGUES DE OLIVEIRA, mestre em Administração Rural).

Anísio Santiago ia contra as teorias de marketing. Imagine um político ou um vendedor de bugigangas rejeitar aparecer na Rede Globo? Ele não ia atrás de ninguém, as pessoas o procuravam como em romaria, tinha uma personalidade imantada. Inverteu a lógica vulgar e fez um marketing sólido, mais sólido que a nossa moeda. Apesar de ser proibido cunhar dinheiro, que é monopólio do estado, cunhou a Havana, pagando com ela seus empregados e suas compras. Anísio Santiago conseguiu ser uma lenda em vida, mesmo em cidade do interior onde os comentários são quase sempre negativos. ‘Aquele é o Anísio da Havana’, diziam orgulhosos os da terra aos amigos de fora, quando Anísio passava. A marca que criou cresceu e virou fetiche, invertendo a lógica criador criatura, pois a Havana é que era dele, sua subordinada”. 
(APOLO HERINGER LISBOA, escritor, médico e professor de medicina da UFMG).

"A Cachaça Havana-Anísio Santiago é uma referência nacional e internacional; é um modo de fazer; um estado de arte. Daí a razão da mesma ser considerada oficialmente “Patrimônio Cultural Imaterial” do município de Salinas, representando dessa forma todo o país. A Cachaça “HAVANA-Anísio Santiago” é um ícone; é um símbolo; é uma referência e ideal de perfeição que toda cachaça artesanal de qualidade aspira alcançar um dia."
(CLÁUDIO LUIZ GONÇALVES DE SOUZA, Mestre em Direito Empresarial, Professor Universitário, Escritor e Advogado da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

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Refefência bibliográfica:

SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Cuatiara, 2006, 292 páginas.



31 de janeiro de 2015

PRIMEIRO JORNAL DE SALINAS FUNDADO EM 1895

Primeiro jornal de Salinas é de 1895.

Por Roberto Carlos Morais Santiago

O primeiro jornal do município foi "Cidade de Salinas", fundado em 1895, final do século XIX. Circulou na região de Salinas até 1915. Ao lado imagem da edição nº. 14, de 20 de dezembro de 1896, que possui quatro páginas. Uma verdadeira relíquia histórica obtida junto ao acervo histórico de João Costa (1928-2009). 

O jornal foi fundado por Antônio Castro, baiano de Lavras Diamantinas. Em Salinas, além de jornalista, foi farmacêutico prático, negociador de pedras preciosas e político. Foi vereador por duas legislaturas e indicado agente executivo (cargo equivalente ao de prefeito atualmente) por duas vezes (1892-1896 e 1916-1918). Dentre suas importantes realizações foi a aprovação do Primeiro Código de Posturas do município no dia 27 de outubro de 1892.

18 de dezembro de 2014

MUNICÍPIO DE SALINAS FAZ 134 ANOS


Por Roberto Carlos Morais Santiago

A data mais importante da história de Salinas figura em seu brasão,
mas nunca foi comemoradas pelas autoridades e pelo povo salinense.
Hoje, dia 18 de dezembro de 2014, Salinas faz 134 anos de existência como município. A data é histórica e digna de registro. 

O município foi criado pela Lei Provincial nº 2.725, de 18 de dezembro de 1880, assinada pelo vice-presidente da província de Minas Gerais, Cônego Joaquim José de Sant'Anna, na então capital Ouro Preto, cujo imenso território foi desmembrado da Vila de Rio Pardo. Nesta data vivia-se o Brasil imperial de D. Pedro II. 

Trata-se da mais importante data da história de Salinas que vem desde 1790, no final do século XVIII, quando chegaram os pioneiros e iniciaram o primeiro núcleo urbano  para exploração de sal gema, produto muito precioso na época.

Infelizmente, data tão importante nunca foi comemorada pelas autoridades e pelo povo salinense. Equivocadamente, o município comemora como sendo sua data oficial o dia 4 de outubro de 1887 (feriado municipal) em razão da Lei Provincial nº. 3.485. Não se questiona a importância desta data, pois esta foi somente o reconhecimento da vila de Santo Antônio de  Salinas como cidade. Nesta data, o município já existia, inclusive com instalação de sua 1ª. Câmara Municipal  no dia 18 de janeiro de 1883.

Como povoado, Salinas surgiu por volta de 1790, no final do século XVIII, ainda no período colonial lusitano. Considerando-se o período de surgimento do povoado, Salinas tem hoje 224 anos de história e, inacreditável, quase ninguém se dá conta disso, principalmente as autoridades constituídas. De 1790 a 1833 foi povoado e integrava o Termo de Minas Novas do Fanado (atual município de Minas Novas). De 1833 a 1880, foi distrito de Rio Pardo de Minas. De 1880 até os dias atuais como município.

Salinas, década de 1930.
Salinas possui quatro datas importantes na sua história dignas de registro: 1790 (surgimento do povoado),  1880 (criação do município), 1883 (instalação da 1ª. Câmara Municipal) e 1887 (vila elevada a cidade). Somente a última é comemorada oficialmente. Assim, a data oficial do município de Salinas deveria ser 18 de dezembro de 1880, ou, na pior hipótese, 18 de janeiro de 1883, data de instalação da 1ª Câmara Municipal. 

Algum vereador de Salinas com lucidez histórica deveria propor projeto de lei alterando a data oficial do município. É o mínimo que se faria aos antepassados salinenses que lutaram pela emancipação da Vila de Rio Pardo.

Do seio de Salinas foram criados vários municípios ao longo de sua história: Pedra Azul (1911), Taiobeiras (1953), Águas Vermelhas (1962), Rubelita (1962), Fruta de Leite (1995), Novorizonte (1995) e Santa Cruz de Salinas (1995).


Figura como principal economia da microrregião de Salinas composta por dezessete municípios. A epopeia do povo salinense é digna de registro. Lembrar o passado salinense é dar o devido valor aos seus antepassados que tanto contribuíram para a Salinas de hoje ser o que é no cenário nacional, inclusive com o título invejável de Capital Mundial da Cachaça de Alambique.

Abaixo texto original da Lei nº. 2.725, de 18 de dezembro de 1880, que criou o município de Santo Antônio de Salinas (em 1923 o município passou a se chamar somente Salinas - Lei Estadual nº. 843, de 7 de setembro de 1923 - tal como é até hoje):

................


LEI Nº. 2725, de 18/12/1880
(texto original)

Cria o Município de Santo Antônio de Salinas

O Cônego Joaquim José de Sant’Anna, Comendador da Ordem de Cristo e Vice-Presidente da Província de Minas Gerais: Faço saber a todos os seus habitantes, que a Assembléia Legislativa Provincial decretou, e eu, sancionei a Lei seguinte:

Art. 1º - Fica elevado à categoria de vila o arraial de Santo Antônio de Salinas, devendo ser a mesma instalada, depois que seus habitantes houverem oferecido à província os edifícios com as acomodações necessárias para câmara, cadeia e escolas de instrução primária. 


§ 1º - O município desta vila se comporá das freguesias de Santo Antônio de Salinas, sua sede, e de Água Vermelha, ambas desmembradas do termo do Rio Pardo; ficará pertencendo à comarcado Grão Mogol, e terá todos os ofícios de justiça criados por lei geral. 


§ 2º - As divisas da freguesia de Água Vermelha serão asmesmas do antigo distrito deste nome, compreendendo os lugares denominados Catinga e Pajão.

Art. 2º - Ficam revogadas as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimentoe execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais, aos 18 de dezembro de 1880.

Joaquim José de Sant’Anna
Presidente da Província.

23 de julho de 2014

CENTENÁRIO GRUPO ESCOLAR DR. JOÃO PORFÍRIO

O grupo escolar
leva o nome do
deputado estadual
João Porfírio Machado,
representante político
da região de Salinas no
inicio do século XX.

Por Roberto Carlos Morais Santiago


O centenário Grupo Escolar Dr. João Porfírio foi construído entre os anos de 1908 e 1910, onde atualmente está instalada agência do Banco do Brasil, ao custo de cerca de cinco contos de réis do governo mineiro, somados à contribuição do povo salinense que muito queria uma unidade de ensino na cidade. A escola foi instalada no dia 23 de setembro de 1911. Poucas décadas depois, interesses econômicos e políticos levaram à demolição do antigo prédio da escola que, dizem, tinha grande valor histórico. Uma nova sede foi construída na década de 1940 em frente à praça do mercado velho onde funciona até hoje. É a mais antiga escola da região de Salinas. Ali estudaram milhares de salinenses. O valor histórico e social da escola é incalculável e foi de suma importância para o desenvolvimento de Salinas e região na formação cultural de gerações de salinenses. No dia 23 de setembro de 2011 a escola completou 100 anos de existência, um feito espetacular comemorado com toda pompa. Abaixo algumas imagens atuais da escola que encontra-se em excelente estado de conservação. 


Fachada atual da escola.

Fachada da escola na década de 1950.

14 de abril de 2014

"OCTACILÍADA: UMA ODISSÉIA DO NORTE DE MINAS" REGISTRA HISTÓRIA DA REGIÃO DE SALINAS

Capa do livro.

Por Roberto Carlos Morais Santiago

O raro livro "Octacilíada: Uma odisséia do Norte de Minas", autoria do salinense Abdênago Lisboa (1916-1977) foi lançado em 1992 pelo filho Apolo Heringer Lisboa. Aborda a trajetória de sua de sua família tendo como epicentro o pai Octacílio Lisboa, bem como revela aspectos históricos e culturais de Salinas e região desde os tempos do Império até meados da década de 1970. O livro possui, ainda, fotos históricas e diversas árvores genealógicas de famílias salinenses e outras regiões do Norte de Minas. O blog História de Salinas recomenda leitura a todo salinense que queira conhecer um pouco a história de sua terra... imperdível. O livro merece nova edição pelo seu valor histórico e cultural. O autor Abdênago Lisboa, além de pesquisador, escritor e poeta, foi o primeiro diretor da Escola Agrícola de Salinas.

CORONEL IDALINO RIBEIRO

Cel. Idalino Ribeiro (1879-1973).
Por Roberto Carlos Morais Santiago


Coronel Idalino Ribeiro é um dos maiores personagens políticos da história de Salinas. Foi chefe político de fato e direito na região de Salinas por quase meio século. Pouco se sabe sobre sua pessoa. Há poucos registros. Poucos livros abordam sua trajetória política, como "Octacilíada: Uma Odisséia do Norte de Minas", de autoria de Abdênago Liboa, e "O Caminho de Volta - A travessia do Deserto", autoria de Geraldo Paulino Santana. São dois livros interessantes que o blog História de Salinas recomenda para quem deseja entender os meandros da política salinense no século XX.

Idalino Ribeiro, filho de João Nepomuceno e Benevinda Costa Ribeiro, nasceu em Salinas no dia 3 de maio de 1879, final do século XIX. Sua família é uma das pioneiras de Salinas com raízes em Rio Pardo de Minas. Em 11 de julho de 1904 se casou com Laudelina Chaves, filha única do rico fazendeiro e político José Chaves. Da união teve quatro filhos: Odete Chaves Ribeiro, José Chaves Ribeiro, Osmane Ribeiro e Severina Chaves Ribeiro.

Ainda jovem, com o apoio do deputado Edmundo Blum, que representava a região do Alto Rio Pardo, foi nomeado fiscal de impostos de consumo do Estado com salário de 120$000 réis e mais 5% da renda. A sua área de fiscalização era imensa alcançando os municípios de Salinas, Grão Mogol, Araçuaí, Pedra Azul, Jequitinhonha, até o Salto da Divisa. Ganhou, ainda, patente para negociar fumo. Em vida se firmou como pessoa influente, comerciante e político.

Foi chefe político em Salinas por quase meio século. De 1918 a 1930 foi Agente Executico (cargo equivalente a prefeito atual) que era ocupado pelo presidente da Câmara de Vereadores. De 1930 a 1959, impôs todos os prefeitos (nomeados ou eleitos) do município, quando seu candidato foi derrotado pelo sobrinho e emergente político emergente Geraldo Paulino Santanna. A partir daí entrou em dacadência política.

Em 1923, foi responsável pela construção e inauguração de ponte de madeira ligando o centro ao bairro São Geraldo. O construtor responsável foi o carpinteiro Viroti, de Jequitaí, que ganhava 15$000 por dia, muito dinheiro para a época.

Em 1928, com a chegada dos primeiros automóveis em Salinas, promoveu a construção da estrada de rodagem de Salinas a Brejo das Almas (atual Francisco Sá) ficando pronta em 1929. O governador Olegário Maciel Dias, de 1931 a 1933, refez a estrada, pagando o conto de réis por quilômetro com intuito de dar serviço para grande número de desempregados que estavam criando problemas para o Estado. O Coronel Idalino Ribeiro financiava a construção sendo reembolsado pelo Governo de Minas posteriormente.

Palacete especialmente construído em 1933 pelo Cel. Idalino Ribeiro
para receber o governador Benedito Valadares.
Em 1933, como forma de demonstração de poder e prestígio político construiu palacete residencial especialmente para receber o governador Benedito Valadares que veio participar da inauguração da reforma da estrada que liga Salinas a Brejo das Almas. Por muitos anos a política salinense foi articulada nas salas deste palacete.

No período em que esteve no poder, toda população de Salinas e região, diretamente ou indiretamente, era influenciada pelo Cel. Idalino Ribeiro. A sua palavra era derradeira e decisiva. Por respeito ou medo todos o reverenciavam. Existiam outros coronéis em Salinas de menor expressão em sua época como Bernadino Costa, Procópio Cardoso, Moysés Ladeia. É fato inconteste que o  Cel. Idalino Ribeiro estava acima de todos. Dizem que sua ascensão ao poder político em Salinas foi à força e contou com apoio de jagunços baianos e parte da elite local. 

Representou fielmente na região de Salinas o papel de chefe oligárquico numa época em que oligarquias familiares eram células importantes no xadrez político da República Velha no Brasil (1889-1930) e da era Getúlio Vargas (1930-1945).

Cel. Idalino Ribeiro faleceu em Belo Horizonte no dia 28 de outubro de 1973, aos noventa e quatro anos. Seguramente figura no rol dos homens mais importantes da história de Salinas.


Artur Mendes, Cel. Idalino Ribeiro, Dr. Anthero Ruas e Antônio Neves.
(Fonte da imagem: Abdênago Lisboa)